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PASSEIO A “ GARANHUNS”
Terra dos lobos “guarás” e dos pássaros “anuns”.

Foi no dia 20 de setembro, e saímos do ponto de encontro “Rei das Coxinhas”, em Gravatá. A frota de veículos (um ônibus e uma van) estava chegando de Escada, Município vizinho. E chegaram na hora aprazada, apenas com 15 minutos escorridos e caídos em buracos na pista; Quando a causa é nobre, a tolerância é apenas um gesto de amizade. Embarcamos, começamos a viagem, e só paramos para abastecer o bólido brilhante. Próxima parada: Garanhuns;

“A TERRA DAS FLORES, DAS COLINAS SECULARES, E DOS VALES COLORIDOS”

Durante a viagem houve sorteio de prendas, na base de papel com nomes dos participantes, contudo há quem diga que houve “cambalacho”. Eu não acredito porque sei que todos os presentes são de reputação ilibada, honestidade à toda prova, salvo prova em contrario. Cantaram todas as musicas que eu ouvia na minha infância (a media de idade deve ter chegado a 90 anos); resta dizer que todAs cantavam de mal a pior, com exceção de um rapaz, que não conhecia, e que tinha voz de soprano.
Nosso guia, Sr. Dr. Igor, que não devia ter seguido a carreira jurídica, mas sim a de “HISTORIADO EMÉRITO E CONSAGRADO”, nos presenteou com todas as informações havidas e por haver sobre a Cidade de Garanhuns, sua cidade, sua pátria, seu Olimpo; a cidade das “SETE COLINAS” . Garanhuns só difere da Roma das Sete Colinas, “PORQUE É MUITO MAIS BONITA”. Roma não tem tantas flores quanto tem o nosso jardim do agreste; o que Roma tem muito é fuligem nas paredes dos prédios. É fato que atrai milhões de turistas por causa do Moises de Michelangelo, “DE LA FONTANA DE TREVI” e um “espaguete” matador, insuperável, divino e insubstituível. Só isto Igor, não fique triste. Garanhuns não atrai tantos turistas porque fica depois de “GRAVATÁ” , a cidade da gastronomia e da libação noturna. Sinto muito, meu prezado Igor… Se fosse possível juntar as duas cidades, teríamos “GRAVANHUNS”.
A canseira, digo as visitações a lugares históricos e bucólicos, começaram logo que chegamos ao “jardim das alturas”, cidade das flores. Fomos ao Parque dos Eucaliptos, que, certamente, está cheio de eucaliptos e o cheiro da arvore no ar do espaço. Diferentemente do PARQUE DE LOS ARRAYANES, que fica na Cordilheira dos Andes, na Argentina, e não tem nenhum cheiro peculiar. O nosso, sem dúvida, é mais inebriante.
Depois nós fomos para uma Igreja famosa, de Nossa Senhora, em seguida para um Mosteiro, o que não significa que estávamos fazendo um roteiro santificado, nem que nenhum de nós quisesse ser canonizado. Vimos a Igreja Redonda ( não sei se redonda é adjetivo ou substantivo); fomos ao Cruzeiro, na 6ª COLINA, A “COLINA DO MAGANO”, a uma altitude de 1.030 metros. De lá temos uma impressionante vista bucólica e panorâmica. Igor e os jovens subiram num caramanchão de pedra por uma escada que fica por trás da construção. Eu cheguei perto, olhei para dentro da construção, examinei, prestei atenção, e não vi nenhuma escada, e logo pensei: como estamos na via sacra de Garanhuns, este povo que está naquelas alturas com o “Beato Igor” deve ter “santamente levitado” com toda a leveza das asas dos anjos agrestinos. A Pátria de Simoa está preservada pela eternidade.
A esta altura dos acontecimentos eu já estava por jogar a toalha; o cansaço me dominou, me derrotou, me jogou na lona forrada de pétalas. Queria um hotel, uma cama, um banho, um repouso. Chegamos ao hotel….. com uma hora de atraso. Coloquei minha mão em cima do meu coração e percebi que ele continuava pulsando com toda sua valentia de infartado renitente. Vim e venci! Mentira. Vim e caí na cama, esfalfado, mutilado, debilitado. Tomei água e um banho de, pelo menos, 15 minutos, o que me revigorou. Saí do banho novo em folha. Quase! Não leve em conta as bazofias de um septuagenário.
Fomos todos de ótimo humor para a Câmara dos Vereadores para assistir a uma palestra. Ouvimos a abertura com a locução de um radialista local; também escutamos declamações de poesias de nossos poetas nordestinos, ouvimos cordel, e um resumo “bastante extenso” da historia da cidade. Vou falar a verdade: fiquei chocado com tanta carnificina. Pela manhã Igor nos disse que o Padre Osano matou o Bispo com um tiro, depois o padre foi morto a paulada, e de noite o Professor nos contou da matança dos coronéis pelos jagunços; juro que estava com medo de guardar no meu velho coração, uma bala perdida. Sai da Câmera, digo, da Câmara todo salpicado de vermelho. Minha camisa branca não iria mais me abrigar em outros eventos, mesmo que sem mortes.
Já ouviu falar em humor negro? Claro, todos nós já ouvimos ou participamos de algum evento de humor negro. O de Garanhuns: depois da carnificina dos coronéis pelos jagunços : fomos para um lindo restaurante jantar e eu pedi carne mal passada. Antes, porém, tive o cuidado de tomar um uísque duplo. Se o boi gritou quando eu cortei o filé, não escutei nada! Um viva para os escoceses.
Depois da comida, hotel, cama e sono. O meu foi interrompido às quatro da madruga, por um grito do meu companheiro de quarto, Dr. Gibson: _mata o safado, mata o jagunço”. Coitado do meu amigo, tinha ficado impressionado mesmo!
No dia seguinte fomos comprar chocolate em uma fabrica dos mesmos. Eu comprei R$ 28,00, Suely gastou R$ 33,00 e nossa amiga exagerada Ivoneide “torrou” R$ 50,00. No outro dia telefonou só para dizer que estava tremendamente arrependida com a compra. O chocolate dela chegou em casa todo derretido. Que baixinha das mãos quentes! Valha-me Deus! ‘
Chegamos em casa… pois é, toda ida tem volta. Somente a ultima é que não tem o bilhete de volta. Tomei um banho, vesti o pijama e dormi por 13 horas seguidas, sem levantar nem pra fazer xixi; meu recorde.
Que venham outras viagens, outros passeios mesmo com carnificina e via crucis. Estarei sempre disposto a dar minha contribuição de cansaço e santidade. Afinal de contas não é todo dia que se ganha o reino dos céus.
A viagem foi muito divertida e nunca ri tanto quanto nestes dois dias. Foi sensacional, maravilhosa e inesquecível. Tudo graças ao empenho da Presidente da Academia de Letras de Escada, Teresinha Melo; a mulher que sempre tem um sorriso nos lábios, um coração imenso e uma aura divina e brilhante.
Agradeço a oportunidade a todos os companheiros, àqueles que se lembraram de mim, aos confrades e confreiras e até mesmo ao magnífico motorista do ônibus.

ALAOMPE
Anchieta Antunes – Copyright.
Gravatá, 22/09/2014.

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ANCHIETA ANTUNES

Recém casados, estavam morando na casa que havia sido dos pais de Lucinha. Vizinhança antiga, todos amigos, ou, no mínimo, conhecidos de longas datas. Um bairro de classe média com a vida resolvida. Em frente à casa em estilo colonial, uma grande praça arborizada. Não era uma praça nos moldes conhecidos como tal; era um terreno privado que a Prefeitura desapropriou e esqueceu que ela existia, ficando, pois, para o bairro em caráter eterno. Muitas árvores sombreavam o terreno, a maioria frutíferas, alguns bancos de madeira salpicados pelo perímetro retangular. Bom para caminhar, e sem duvida para descansar quando se reuniam à noite em suas cadeiras formando rodas de bate papo.
Cada família cuidando de seus afazeres, trabalhando em suas profissões, regando cada dia com o suor que escorre pelo rosto riscado de responsabilidade; é apenas a vida: chegamos, percorremos, partimos. Fica, ás vezes, uma saudade que o tempo corroe e depois passa um verniz de esquecimento. Tudo resolvido, vamos esperar os próximos…
Assim viviam Lucinha e Mario como milhões de outros casais. Os filhos vieram, como é natural em casais saudáveis. Nasceram, cresceram, estudaram, casaram e tiveram outros filhos. Alguns traços indesejáveis começaram a aparecer e marcar os rostos que um dia foram bem lisinhos e brilhantes. Ruga é a visita que chega para todos que passam dos 60 anos. É aquele tipo de visita que chega e se instala como se fosse a dona da casa. Será que não é? E o mais desagradável dessa visitante é que ela costuma chamar suas amigas para a mesma pousada. A cada ano chegam novas moradoras eternas, até que um dia o rosto da pessoa parece um mapa físico da vida, das atribulações, das alegrias e desesperos. São os anos que aportam sulcando o rosto e forjando o caráter.
O casal gosta de lembrar os tempos em que eram sós, não tinham filhos, e, em conseqüência, menos preocupações. Deitavam-se na rede da varanda para balançar, falar do dia de cada um, beijarem-se, e amarem-se. Nada os impedia de desfrutarem de total liberdade de movimentos, de aconchegos, de dengos e de amor. E assim, rapidamente passaram-se os primeiros dez anos de casamento. Não que os filhos tenham trazido arrependimentos, de maneira nenhuma, eles adoravam os filhos, e dedicaram toda a vida para cuidar dos herdeiros. Com a família completa, restava viver a felicidade completa, e assim o fizeram.
Quando, em alguns finais de semana, os netos chegavam e gritavam: vovó, vovó, Lucinha se derretia toda, de amor, de prazer, de felicidade. Ela sabia estar vivendo o momento da sobremesa da idade, com palavras doces, com abraços com sabor de sorvete de chocolate, com beijos que mais pareciam pudim de leite. O sarau da vida estava servido, só restava degustá-lo com prazer e sem culpa. Lucinha engordou alguns quilos de satisfação. Pneus na cintura? Melhor! Se cair, rola mais fácil. A vaidade a havia abandonado quando ela fez a curva dos cinquenta, e dizia: _não preciso mais deste adorno supérfluo, já te usei por muito tempo, já desfrutei de elegantes momentos em salões brilhando de galanteios, de saias rodopiando ao som da orquestra que alegrava os corações.
Lucinha passou alguns anos de sua vida pousando para fotos que eram apresentadas em Galerias de Arte. Faturou muito dinheiro e muitos rapapés. Seus anos de brilhantismo estavam guardados em álbuns de fotos, que ela não cansava de olhar e mostrar para os netos. Lucinha era feliz! A família era feliz! Os netos diziam:_minha avó é linda! E ela rebatia:_era, meus amores, era… Assim passaram-se os dias, os anos e finalmente a velhice bateu à porta com vontade de não mais sair à procura de outrem. A idade nunca chega para fazer uma visita e ir embora depois do cafezinho com brigadeiros. Não! Ela chega para se instalar, para se deitar no divã do cansaço corporal, do incomodo na coluna, do ombro dolorido. Antes de a idade fazer-se presente, as mazelas adentram o ambiente físico e dominam os sentidos; os cartões de visita são a artrose, a artrite, o lumbago, câimbra na panturrilha e a vista curta.
_Mario, você pode trazer um copo com água pra mim?
_Claro, meu amor! Gelada ou natural? Natural né? Você não pode gripar agora!
_Como você quiser, você é que manda.
Assim os dias iam passando na modorra do calor ou na umidade do inverno, até que um dia, quando Mario entrou em casa, no cair da noite, sentiu o cheiro de ferro queimado e correu pra cozinha. De longe avistou uma chaleira cor de brasa.
_Lucinha, você colocou água pra ferver?
_Eu não, daqui não arredei pé desde o almoço.
Foi o primeiro sintoma a ser detectado pelo marido zeloso. Ficou de orelha em pé e cuidou logo de conseguir trabalhar somente pelas manhãs; as tardes seriam dedicadas à companheira de tantos anos.
Um fogo aceso é o primeiro flash de uma sequência de acontecimentos desastrosos. Ele sabia que precisava levar a esposa ao medico, mas sempre adiava com medo do diagnóstico, que acreditava já saber.
Depois de uma sequência de pequenos acidentes começaram a acontecer as falhas de memória. Primeiro uma data importante, depois o dia de hoje, em seguida o nome da empregada de tantos anos de dedicação laboriosa. A avalanche vinha rolando com uma rapidez insuspeita, a cada dia um novo sintoma e por ultimo as mãos tremendo sem motivo nenhum aparente. Quando Mario percebeu, o mal estava instalado e ele teve que se aposentar com urgência. Iria dedicar-se em tempo integral aos cuidados da esposa, da amiga, companheira, mãe de seus filhos, sua amante fiel e dedicada, seu mundo, sua janela para o jardim florido da vida. Agora eram Mario e Lucinha.
Mario levantava-se bem cedo para preparar o banho de Lucinha naquela imensa banheira que ele conseguira num antiquário. Água morna, sais minerais e bastante espuma com fragrância de lírios. Ela adorava aquele banho, com Mario molhando sua cabeça com uma jarrinha de porcelana; ela às vezes se engasgava, mas logo passava, com duas ou três tosses provocadas. Esse banho durava mais de uma hora, com Lucinha brincando com a água, com um baldezinho, com um boneco de borracha; uma criança em corpo de mulher. Mario, delicadamente passava uma esponja de cetim pelo seu corpo, como se estivesse espanando uma poeira de estrelas.
Aqueles movimentos dentro da banheira eram um ritual sagrado, dedicado à saúde mental de Lucinha; ela precisava, ele acudia. Quando ele percebia que ela pendia para um sono profundo, retirava-a delicadamente da água, envolvia num roupão felpudo e a secava com todo o cuidado para não machucá-la. Pendurava o roupão no cabide e com ela nos braços ia até a cama, onde colocava uma camisola, não sem antes banhá-la com talco e lavandas. Rapidamente trazia uma bandeja com o café da manhã. Frutas e sucos, um pão bem macio com geléia de maçã. Mario sentia um prazer arrebatador em cuidar de sua amada, e dizia:_Meu amor, você é a minha vida, meu sopro de felicidade, sem você não tenho nenhum interesse em viver.
Ele mesmo havia cortado o cabelo de Lucinha, à “chanel” para não enroscar-se no pescoço, para não incomodá-la. Ele sempre a via linda e charmosa; continuava apaixonado por Lucinha. Naquele momento o objetivo de sua vida era “integral dedicação à esposa, à sua Lucinha querida, a mãe de seus filhos”; para isto ele vivia.
O mal avançava com voracidade e a cada dia notava-se uma debilidade extravagante. Lucinha não conseguia mais segurar os talheres para comer e Mario alimentava seu alento de vida com carinho e dedicação. Quando nasceu o primeiro filho, Lucinha havia ganhado um jogo de talher de prata para o bebê. Talheres pequenos para uma criancinha recém nascida, com desenhos delicados e curvas graciosas. Era a colherzinha que Mario usava para levar até os finos lábios de Lucia o alimento pastoso. Colocava um guardanapo bem grande ao redor do pescoço e com toda a paciência do mundo ia ministrando pequenas porções de alimento, como se estivesse alimentando um infante.
Lucinha definhava dia a dia, pois praticamente não comia, não conseguia engolir direito a comida que o marido dava. Terminado aquele arremedo de refeição, Mario a levava nos braços até a varanda e delicadamente a deitava naquela rede onde outrora eles fizeram amor nas noites de verão. Doces recordações envolviam o coração do homem que cuidava da esposa enferma. Lembranças de uns tempos que não voltam mais…
A roda viva da vida roncava nos ouvidos de Lucinha como que para lembrá-la de que estava ali à espreita, pronta para dar o ultimo bote. A roda estava emperrada e queria ir embora para bem distante para descansar da luz do sol, da brisa da noite, das noites insones cuidando dos filhos, dos momentos de pura luxuria com o marido, das viagens alucinantes que fizera, dos mares que navegou, dos parques em que brincou, dos brindes que sorveu com alegria e risos delirantes. A vida estava cansada de viver e desejava o repouso eterno.
Mario adivinhava a proximidade do fim de sua querida mulher. Ele sabia que Lucinha ia perder aquela ultima batalha para o mal de Alzheimer. Não havia rota de fuga, nada de escapatória, não contava com o beneplácito da clemência. Deus estava por bater o martelo anunciando a sentença final, a origem de tudo, a morte. Mario não queria desistir, não jogaria a toalha, lutaria até o ultimo instante, mesmo sabendo que estava vencido pelo tempo, pelo destino.
Naquela manhã, depois do banho de espumas, quando ele a vestia com a camisola, sentiu um arrepio, um vento frio que fustigava o quarto, rodopiando como uma espiral, silvando o último silvo, varrendo a ultima poeira do solo sagrado do quarto de Lucinha. Mario chorou a primeira lagrima, benzeu-se como para livrá-la do mal que a rondava funesto.
Mario desistiu de vestir a camisola e correu para o baú ao lado da cama; abriu-o com sofreguidão, e com o coração tumultuado retirou às pressas, todas as peças de roupas que abarrotavam a arca, até que encontrou o que buscava.
Vestiu-a com todo o esmero, fez um penteado alto e colocou uma coroa de narcisos. Colocou um pouco de maquiagem para emprestar cor ao rosto descarnado e a sentou em sua poltrona preferida. Ela estava linda com seu vestido branco de noiva, com cauda rendada e fios dourados. Ele a imaginou uma santa moribunda prestes a se casar com Deus. Ficou aos seus pés como que a adorando, prestando sua ultima homenagem, até que percebeu que ela queria dizer-lhe algo. Aproximou o ouvido de sua boca e pareceu escutar ela dizer:
_B… bei… beijo… meu amor
Mario aproximou seus lábios dos dela, aquele fino traço carmesim que um dia brilhou nos salões, e, quase sem tocar para não macular sua santa esposa, ele a beijou com toda a
T E R N U R A

de que era capaz, como se apenas estivesse soprando seu derradeiro sopro de paixão sobre a mulher que amou por toda sua vida.
Lucinha partiu nas asas dos anjos, Mario ficou esperando sua viagem de reencontro.

ALAOMPE
Anchieta Antunes – Copiryght
Gravatá – 10/09/2014.

 

O E N C O N T R O II – ACADEMIAS.

Foi no dia 23 de agosto de 2014. Um encontro ímpar. Claro! Se fosse no dia 24 seria um encontro par. Mas isto não tira o brilho do I ENCONTRO DE ACADEMIAS DE LETRAS E ARTES DAS MICRORREGIÕES DE PERNAMBUCO na cidade de Escada-PE.
Vou começar do começo. Moramos em Gravatá, eu e Dea. Ah! Gibson também vive na mesma cidade serrana. Marcos e Ivoneide é que habitam pelas bandas do Recife. Que horror! Coitados, entraram em um engarrafamento e aí estiveram por mais de três horas. Estava acontecendo uma greve dos motoristas e cobradores de ônibus. Dois milhões de pessoas sem ter como sair de casa, ou como voltar pra ela
Eram quase dez da noite quando conseguiram chegar ao nosso paraíso. Dea havia preparado um pastelão de presunto e queijo e temperos, para esperá-los, e ficamos aguardando. Antes eles foram à residência de nossa querida Madalena Medeiros entregar um livro, isto, salvo erro, engano ou omissão.
Chegaram em casa e eu já bocejava fazia um tempão, mas amigo, é amigo, temos que esperar. Valeu à pena esperar, pois Ivoneide nos trouxe um pastelão melhor que o de Dea; refestelei-me. Que delicia!!! Era de frango desfiado. Ainda estou com água na boca. Conversamos um pouco e fomos dormir: isto sim, cada qual em sua casa. Marcamos nos encontrar às 5:45 da manhã seguinte. Passamos na casa de Gibson que ia conosco, ele embarcou e deixou o Pastor tomando conta da casa; uma segurança impar, também.
A estrada para Escada, embora asfaltada, está terrivelmente esburacada, além de ter muitas curvas e ladeiras. Conseguimos chegar, e entrei na rua errada para ir ao nosso encontro cultural. O primeiro encontro desta magnitude a ser realizado no Estado. Uma apoteose, um congraçamento de escritores, poetas e artistas plásticos de muitos Municípios de Pernambuco.
Primeiro fomos deixar nossa bagagem na “POUSADA DO TIO CARLOS”, um baiano desgarrado de suas origens; bonachão e conversador, que nos deu todas as dicas da cidade de Escada. Uma cidade com muitas ladeiras, curvas e pequenas pontes, uma salada de cruzamentos, e, milagrosamente, sem acidentes de trânsito.
Caminhando pelos corredores da pousada encontrei um pequeno letreiro que dizia:”PROIBIDO TRANSAR SEM CAMISA”. Fiquei curioso e ao mesmo tempo indignado, pois, ninguém tem que me dizer como transar, se com, ou sem camisa. Há que lembrar que vivemos num país tropical, ora bolas! Limpei os óculos na fralda da camisa, aproximei-me do letreiro e novamente li:”proibido transitar sem camisa”. O susto deu lugar à vergonha de ter pensado mal do baiano.
Curiosidades: quando chegamos à pousada a mocinha que nos recebeu foi logo dizendo:_ coloquei vocês no primeiro andar, para não terem de subir escada.
Até hoje estou tentando entender a lógica de Escada, sem escada no primeiro andar. Uma incógnita para os Acadêmicos de Escada decifrar.
Finalmente chegamos à FAESC, Faculdade de Escada, simples assim! Simples para destrinchar a sigla, porque para chegar à FAESC precisamos usar o GPS do carro. Curvas e ladeiras, subindo e descendo; um emaranhado de ruas, becos e avenidas, umas cruzando com as outras. Provavelmente o cara que fez o layout da cidade, estava precisando, urgentemente, de um esconderijo indevassável, daqueles dignos de “Tesouro Perdido”.
Fomos muito bem recebidos pelos organizadores do encontro; fomos levados a uma sala para o café da manhã, por sinal um lauto café; bolos, pães, torradinhas, queijos, salames, presuntos, sucos, carne e outros. Tudo prescrito nas tabelas de nutricionistas como “sumamente engordativo”. Quando estamos em reuniões de cultura, de poetas, escritores e artistas, quem se importa com engordar ou emagrecer? Comemos de tudo, e muito.
Uma pequena amostra de quadros e esculturas nos foi mostrada como estimulo aos artistas, e, quem sabe, algumas vendas oportunas! Em seguida fomos para o auditório para o inicio da jornada cultural. A Presidente da ALAE, Terezinha Melo abriu os trabalhos e nos desejou as boas vindas. Iniciaram-se os trabalhos e a primeira mesa foi formada com o tema: ”A LITERATURA EM SUA DIVERSIDADE LINGUISTICA”. Ao todo foram formadas cinco (5) mesas para tratar de temas diferentes, o que nos tomou todo o dia. Cada assunto mais absorvente que o anterior, discussões ardentes desafiavam a platéia a participar, senão com apartes, pelo menos com total atenção. Tivemos um dia cheio de cultura, de versos, de cordéis, e, até mesmo prosa, como crônicas e contos. A alma estava lavada, o espírito adejando nas asas da “sapientia”. Um refrigério em forma de palavras, de conhecimentos.
Por volta das 18:00 horas nos informaram de um jantar patrocinado pela Academia em um restaurante, que naquele momento seria aberto somente para nosso congraçamento, às oito da noite. Tivemos tempo para um banho, um repouso, e depois o momento pantagruélico. Quase todos estavam presentes; digo quase todos, porque alguns tiveram que retornar às suas cidades de origem por motivos múltiplos.
Como não podia deixar de ser, tivemos poesias recitadas, cordéis destrinchados, brincadeiras com palavras e a ordem do dia: o próximo encontro dentro de um ano, ou seja, nos dias 22 e 23 de agosto de 2015, na cidade de Pesqueira, alto sertão de Pernambuco. Finalmente o merecido repouso para a volta no domingo. O fato é que comemos bem, dormimos melhor ainda, e enchemos nosso matulão de cultura e diversidades culturais.
Se valeu a pena? Muito mais que isto, voltamos mais ricos em conhecimentos e amizades conquistadas durante o encontro.
Quando chegamos em Gravatá, fui logo deixar Gibson em sua casa guarnecida pelo “pastor alemão”, que de longe balançava o rabo para seu dono e amigo. Marcos e Ivoneide só tiveram tempo de tirar o carro da garagem e partir para sua casa. Estava encerrada a jornada cultural. Um glória, um louvor a Deus.
Agora só nos resta esperar o próximo ano em Pesqueira.

ALAOMPE
Anchieta Antunes – Copyright.
Gravatá – 1º de setembro de 2014.

ANCHIETA ANTUNES

Aconteceu quase que por acaso. Nada foi determinado pela vontade do homem. Pode ter advindo da providencia divina, ou, como dizem, o universo conspirou. O fato é que aconteceu.
Tem aquela historia toda do convite para sermos acadêmicos, com reuniões, posse, festa pós posse e tudo o mais. São mais de trinta membros e nem todos se conhecem. Eu e Dea conhecemos , no máximo, uns seis. Nas reuniões marcadas pela mesa diretora, sempre acontece de faltar a grande maioria; falta de tempo, muito trabalho, viagens inesperadas e outras circunstancias. Por outro lado, o nosso espaço é exíguo, não caberia todos. A Academia é pobre, ainda…
Um belo sábado de inverno, certamente com muita chuva a despencar do céu, um forte vento soprado do leste, encharcava nossos corpos de umidade pegajosa, obstruindo pensamentos elevados, alegres ou dedutivos. Aí vem a surpresa. Soa o telefone:
_Alo! Digo eu…
_Anchieta?
_Sim. Sou eu…
_Estou indo até sua casa para conversarmos um pouco…
_Posso saber com quem estou falando?
_Com Jaílson…
_E quem é Jaílson?
_Seu colega da Academia; também sou acadêmico.
_Ah! Pode vir, será um prazer recebê-lo… Dea, Jaílson está vindo nos visitar.
_E quem é Jaílson?
_Colega nosso da Academia…
_E você o conhece?
_Não lembro de tê-lo conhecido!
_Bom! Vamos recebê-lo e saber do que se trata.
Passados alguns minutos, parou um carro na frente de casa. Concluímos que seria nosso mais novo amigo, pelo menos era o que esperávamos que ele viesse a ser. Prazer para cá, prazer para lá, (tudo falsidade, pois ninguém tem tanto prazer quando mal acaba de conhecer uma ou mais pessoas) e os convidamos a entrar e sentar (os convidamos – porque ele estava acompanhado de uma dama, que depois ficamos sabendo ser sua esposa).
_Anchieta, foi com eles que nos encontramos no restaurante aquele dia, lembra?
_Claro que lembro.
Mentira; não tinha a menor idéia… mas faz parte do jogo de relacionamentos sociais.
_Jaílson, eu vou tomar um uísque, você aceita?
_Só bebo água…
Sempre desconfiei de pessoas que não bebem nada, não fumam, enfim, pessoas desprovidas de vícios. Quaisquer que sejam. Ninguém é tão puro depois de atingir a maior idade, a não ser por enfermidade ou fanatismo religioso. Ele tomou sua água e eu meu uísque. A madame preferiu um guaraná. Dea gosta de um espumante.
Ficamos sabendo que a esposa é enfermeira e Jaílson, artista plástico. Daqueles empolgados e confiantes em seu talento. Mostrou-nos fotos de suas obras, detalhando cada uma delas. Ele pinta quadros… por sinal muito bons, bons não, ótimos, lindos. O homem tem mesmo talento e técnica. Cursou artes plásticas. Curso superior. Foi até o carro e trouxe algumas telas, todas maravilhosas. Foram os quadros mais lindos que eu já vi. Parabéns Jaílson, você é artista mesmo…
Conversa vai, conversa vem, houve um gancho para eu começar a contar a historia da minha vida ligada a Dea. Desde os primórdios. Fico empolgado quando começo a contar nossa historia, principalmente alavancado pelo uísque. Notamos que os dois estavam interessados. Faziam muitas perguntas. Dea tomou embalo e partiu para os detalhes. Eu conto por cima, não tenho memória para minúcias.
Uma hora depois, já estavam convidados para almoçar e o relato ainda estava em pauta. Entre uma garfada e outra terminamos nossa historia – com detalhes, como já disse.
Terminado o almoço fui dormir. É o que faço sempre, principalmente quanto tomo uns uísques… todos que me conhecem me dão a graça do perdão…
Os dois muito simpáticos, falantes e descontraídos. Ótimas companhias. A base da amizade estava fundada, como alicerce de uma casa. Dea me disse que eles demoraram mais uma meia hora e foram embora.
Não esqueça que tudo isto aconteceu no sábado. Na segunda-feira, por volta de nove horas da manhã toca o telefone. Atendi.
_Quem está falando? Perguntou a voz na outra ponta da linha.
Como, quem está falando? Quando eu telefono para alguém, digo: gostaria de falar com fulano, pode ser? Quando me perguntam quem está falando, digo logo, quer falar com quem? Foi o que fiz.
_Com Anchieta…
_Sou eu mesmo…
_Anchieta, é Jaílson… você me disse que viria a Bezerros hoje de manhã, ainda vem?
_Houve mudança de planos. Hoje, em Gravatá, é dia santificado e o comercio está fechado. Precisamos comprar alguns itens para levar para a academia e estamos impedidos. Fica para amanhã.
_Então vou passar por aí. Quero mostrar uma coisa que fiz este final de semana.
_Venha, então
_Dea, Jaílson está vindo aqui, agora.
_Fazer o quê?
_Vem nos mostrar uma coisa que ele fez este final de semana.
_Esse cara é maluco, como todos os artistas, disse Dea.
Ele chegou sorrateiramente, abriu o carro como quem abre a porta do templo; o templo que guarda o encanto, a formosura, a arte e sua mensagem.
Ele havia trabalhado desde que saíra de casa até a segunda-feira às sete horas da manhã, praticamente sem dormir. Tinha olheiras; profundas olheiras. O cansaço lhe fazia tremer as mãos. Não parou de falar um só segundo. Estava embalado pelo entusiasmo, pela emoção. Por primeira vez em sua vida havia pintado dois quadros em um único final de semana. Estava com os ombros caídos e o espírito saltitando de alegria, de felicidade. Havia realizado um feito nobre, digno de um cavaleiro da Távola Redonda; apenas trocou a espada pelos pinceis; a capa representada pelo seu talento; notava-se o espírito desbravador e a coragem digna do Rei Arthur. “UM NOBRE”, de sangue alagoano.
Trouxe para nós o primeiro quadro, numa moldura que teria provocado ciúmes à MADONA. Mostrou-nos a peça e mudo aguardou nossa reação. Também ficamos mudos, impactados, embevecidos, com a voz travada pela emoção. Não sabia em que detalhe fixar minha atenção. Comecei olhando o canto esquerdo superior; um pergaminho, velho de vinte anos, com dois rasgões na sua lateral. Rosas quase descoloridas, arriando para o oeste do horizonte poente. A tristeza estava representada por aqueles cachos cansados pelo desespero, pela decepção, pela frustração. Percebíamos um amor que agonizava. Lagrimas percorrendo todo o quadro.
Choramos o sentimento do respeito, da surpresa, do inesperado. Que momento lindo!!!
_Este primeiro quadro representa a fuga de Anchieta de Montevideo, deixando Dea com sua grande decepção, com sua perda, com um desfalecimento acabrunhado . Havia partido para sempre, o amor de sua vida, seu sonho de futuro, de casamento, de família com filhos e muitas carreiras. Tinha a alma partida, o espírito abalado pela lesão sentimental. A noite sem lume avizinhava-se para toldar seu tempo obscuro.
_Isto representa este quadro, nos disse Jaílson.
Depois desse esclarecimento, entendemos melhor o que nos dizia a tela.
Vimos com nitidez o episódio ocorrido vinte anos atrás.
_Agora vocês verão o renascer da vida, da fortuna, da bonança; nos disse.
Mostrou-nos a segunda arte. Rosas vibrantes em cores e formas, olhando para o céu, para o renascer da vida. O milagre da ressurreição. O amor de Dea havia vencido aquela batalha, assim como venceria todas as demais batalhas que estariam por vir, como a quebra de sua identidade, a difícil adaptação em um país desconhecido, os filhos partidos ao meio pelo divorcio, a dor da saudade de sua pátria deixada para trás; outra língua para aprender, uma massa cultural diferente de sua origem, novos amigos, outros parentes… iniciava-se uma caminhada longa e tortuosa, com perigos escondidos a cada curva, em cada arvore, em cada horizonte, em todos os amanheceres.
Aquele segundo quadro nos revelou a alegria da vitória, da conquista alcançada, refratando os novos caminhos.
No canto inferior direito, o pergaminho enrolava-se para resguardar a dimensão obtida; sem rachaduras, inteiro, incólume.
Queríamos falar e não nos acudiam as palavras certas. Aquelas capazes de demonstrar nossos sentimentos, nossos louvores. Conseguimos pronunciar alguns elogios bobos que não expunham toda a nossa gratidão e reconhecimento. Só conseguimos chorar, sem pejo.
Tenho ainda outra surpresa para contar. Letícia, nossa netinha, chegou em casa, como um bólido, como soe acontecer sempre que nos visita, ou seja, todos os dias. Entrou no nosso jardim espavorida e com os olhos arregalados de curiosidade; parou diante do quadro por um longo momento, e perguntou:
_Vovó, foi você que pintou estas rosas?
_Não, meu amor, foi Jaílson, este pintor que está ao seu lado.
_Vovó, as rosas são lindas… mas estão molhadas!!!. Não pode! Vai estragar…
Letícia tem apenas três anos de idade… do que se deduz a perfeição da obra. O “molhado” eram as lagrimas por cima das pétalas.
Como retribuir uma homenagem desse quilate? Não sei, não sabemos o que fazer em agradecimento ao nosso novo amigo Jaílson,
“O NOBRE ARTISTA”.

Anchieta
Gravatá – 27/-7/10

ESTRADA DE FERRO – poema Anchieta Antunes.
De ferro batido
no leito dos anos
dormentes dormidos,
unindo distancias
fazendo alarido
Estrada que leva,
pra longe da gente
lembranças mordazes
que junta e separa
saudades sofridas
de amores fugazes

Estrada de ferro
cruzando fronteiras
ligando nações
com sonhos de paz,
luzindo paisagens
de picos nevados.
de grutas escuras
de sonhos alados.

Nos trilhos deitados
fulgindo no lombo
as folhas dos tempos.
Brilhantes lampejos
ardentes e frágeis
guardando esperanças
de brilho candente.

Estrada de ferro
que vem e que vai
afronta barreiras,
canduras e dores
loucuras, amores
o fim e o começo.
de velhas historias
de honra, de gloria.

Caminhos dos campos
das pontes, das águas
a estrada viaja,
sibila, claudica
outros espirais …
do ontem e hoje,
as voltas da vida
que leva e trás.
ALAOMPE
Anchieta Antunes- Copyright
Gravatá – 30/08/2014,

Por: Anchieta Antunes

Tudo começou quando ele era criança; acendia uma vela e apagava a chama com um sopro. Passava horas e horas fazendo este exercício, como se tivesse recebido um comando de Deus. Cresceu acendendo e apagando centenas de velas; só não se exercitava quando estava na escola, aprendendo o bê-a-bá. Soprar velas era o seu melhor passatempo. Reverenciado como o melhor assoprador de velas da escola, como também do bairro, seu supino sopro era aceito como uma magia que só ele conseguia produzir. Paulatinamente começou a desenvolver habilidades insuspeitas, coisas que nunca lhe ocorrera. Se eu disser que se tratava de mágicas, estaria depondo contra um poder verdadeiro, porque o que ele fazia acontecia de fato, e podia ser constatado por qualquer pessoa. Mágica é um truque, geralmente conseguido com o auxilio da velocidade das mãos. Com seu sopro, ele calmamente fazia coisas acontecerem.
Ele era portador do “Sopro Divino”,
somado à magia. Não à mágica. Magia está ligada as faculdades internas da espiritualidade, com características ritualísticas e cerimoniais.
Ele situou sua morada no topo da Serra das Ilusões, que a ela se chega por uma trilha sinuosa, dentro da mata, por ele mesmo aberta com o auxilio de seu sopro da limpeza. Troncos e mais troncos foram ceifados da grande floresta que circunda a pequena cidade; ajustados miraculosamente, um ao lado do outro formando paredes e divisões internas, proporcionando uma excelente moradia. Tudo isto não passava de um encantamento materializado.
Foram três semanas de assopração vertiginosa, o coitado já estava com os pulmões ardendo de tanto soprar. Finalmente ele viu sua obra terminada; procurou uma rede para descansar; cadê rede? Não tinha rede, não tinha nada, só cansaço e assopração. Ele já estava ficando enjoado de seu dom. Dom que ele adquiriu com a repetição. Estava arrependido? Acho que não, porque quem faz uma casa soprando, também faz uma cama, uma rede, mesa, cadeiras, armários, guarda-roupas. Faz tudo que uma casa decente precisa. Era só afinar o bico e começar a soprar. Antes ele precisava repousar um pouco. Estava exausto. Ele era mago, mas era gente também. O trabalho de assoprar sem parar um segundo sequer, o abateu, e ali mesmo no chão de troncos justapostos, dormiu o sono do trabalhador incansável.
Ele acordou e não lembrava onde estava. Havia terminado de assoprar sua casa, digo, de terminar sua casa fazia apenas algumas horas; não tinha ainda o habito de residir em uma casa sua, só sua. Construída por seu sopro diligente. Como era muito jovem estava aprendendo a viver; já havia aprendido a soprar, isto todo mundo concordava, porém, a viver, podemos dizer que frequentava o jardim de infância. Como todo mundo, tinha de passar por todas as etapas; o aprendizado é duro, cruciante, requer dias e dias de elucubrações, de empenho e determinação. Mas ele ia conseguir, pois além de um excelente assoprador, era inteligente além da conta.
Que serventia tinha a faculdade de ser um excelso assoprador?
Isto eu ainda vou descobrir!!!
Antes que descubra não posso deixar de relatar uma tragédia que aconteceu na pequena cidade do assoprador. Inesperadamente caiu uma chuva torrencial, abundante, escorregadia e calamitosa; a lama descia ribanceira abaixo com a fúria da natureza bravia, incontrolada. Uma pequena cidade rodeada de serras, com grandes rochas e pequenos animais. Todos os paralelepípedos que calçavam as ruas eram retirados das rochas das serras da vizinhança. Pedras de excelente qualidade.
Só temos que admitir, ainda que a contragosto, que chuva não respeita nada, nem mesmo pedras da melhor linhagem. E quando todos olharam para o cimo do morro mais alto e enxergaram uma imensa rocha que parecia balançar ao sabor dos ventos molhados de chuva, ficaram petrificados de medo. Aquela coisa imensa, redonda, brilhante sob as gotas, parecia ter olhos para a cidade, ameaçando rolar para esmagar, para triturar, para espremer e deixar como massa de bolo, toda a população, que não era lá estas coisas todas, mas que era gente, isto sim, ninguém podia negar. Se ela rolasse ladeira abaixo, iria entrar pela parede da sacristia da Igreja Matriz, o que seria uma catástrofe irreparável, já que haviam demorado 15 anos arrecadando fundos para a construção da casa de Deus. O Vigário com seu cajado secular administrava a obra e cobrava com rigor que o trabalho fosse executado com precisão e bom gosto.
Aquela imensa pedra iria adentrar pela nave da igreja e talvez rolando até a praça adiante quebrar bancos e desfazer jardins. Um flagelo em plena luz do dia. O caramanchão no centro da praça que havia custado aos cofres públicos mais de dois milhões de reais teria sua entrada violada despudoradamente pela colossal bola de granito puro e reluzente. No centro da pérgula ficaria instalado aquele bloco sólido e incorruptível que descera do topo do morro, matando animais e formigas, e até mesmo cigarras em sua desabalada carreira rumo à devastação da “piccola ciudadela”.
Como evitar aquele desastre iminente? Alguém precisava pensar em uma solução urgente!
Eis que surge em plena praça, no pino do meio dia, o padeiro Hugo Tomas de Aquino Tancredo, com uma solução pitoresca, senão, folclórica. Ele disse: _Convoquemos, em regime de urgência, nosso conhecido assoprador irrecuperável. Manoel Marcius Augustus, para remover a colossal pedra ameaçante.
_E como ele faria esta proeza, digna de Hercules, perguntaram todos em uníssono?
_Ora! Simples como degustar meus pães! Ele sopra na base da pedra e ela rola para o outro lado da colina, e assim ficamos livres de passear no Campo Santo.
A sugestão foi um sucesso, só restava encontrar o assoprador Marcius para convocá-lo em nome da sociedade local. Resolveram dirigir-se à sua casa para conversar e convencer. Conversar conversaram, convencer, estava meio difícil. Marcius tinha medo de um fracasso retumbante.
Ungido que foi ao santuário dos feitos heróicos, Marciu capitulou, venceu o medo do ridículo, vestiu sua túnica branca e mágica e partiu, sob chuva torrencial para o local do iminente desastre colossal:
A ROCHA – O PÊNDULO – A MORTE.

Em lá chegando, ele rezou a oração do “vento forte e corajoso” , afinou o bico, e começou devagarzinho a soprar, como se não quisesse chamar a atenção da pedra imensa que balançava ameaçadoramente. A lama misturada à água da chuva foi preguiçosamente afastando-se da base, daquele perigo ondulante e oscilante, sob o efeito do sopro vigoroso; quando menos se esperou, a imensa rocha rolou encosta abaixo, derrubando, arrancando, e matando tudo que encontrava à sua frente e que poderia impedi-la de prosseguir seu caminho macabro, assassino; até que se chocou com uma sua congênere, maior ainda, e estacou para a eternidade.
E assim quero terminar nossa historinha sem o sacrifício de seres humanos, com a igreja inteira, sem o caramanchão decorado com uma pedra secular instalado em seu circulo interior. A paz voltou a reinar naqueles quintais onde se criavam galhinhas patos, e perus

Esta historia termina na paz, sem mortes, sem desastres irreversíveis, sem catástrofes irrefutáveis, sem a decepção da miséria.
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O leitor indignado pergunta:
E termina assim este conto? Que coisa mais sem graça, sem emoção ou entusiasmo! Todos vivos, saudáveis, felizes e sorridentes? Onde mora a desgraça nesta historia? Vê se inventa outra, esta não colou, não!

Parece que muitos estão habituados a conviver apenas com o resultado final, onde mora a expectativa negativa, que eles carregam no bolso da busca incessante que lhes acomete vivenciar. A estrada, o caminho, os acontecimentos, a preparação para o grande final, nada disto tem nenhuma importância; tenho a impressão que para alguns a vida tem sido vivida apenas para esperar a morte, a inevitabilidade do finito. Que a vida em si não tem valor nenhum, não passou de um passeio infrutífero.
Certas pessoas estão acostumadas a se alimentar do hediondo, como a hiena que se refestela com carcaças pútridas. A paisagem que emoldura o caminho não tem nenhum valor estético. A alegria de correr os olhos pelos campos verdes de seiva, ou brancos de cristais, morre ali mesmo na janela do trem que ronca na subida da vida.

Eu acredito que esqueceram que a melhor parte é a viagem, e não o destino.
Quando colocamos os pés na plataforma, vem o homenzinho fardado de anjo e nos leva a passear nas nuvens do ocaso feliz.

ALAOMPE
Anchieta Antunes – Copyright
Gravatá – 22/08/2014.

CARTA A EDUARDO CAMPOS

Por Carlos Francisco da Silva, de Bezerros (PE)

Eduardo, você não imagina o quanto eu e todo povo pernambucano estamos lamentando a tua trágica e inesperada partida. Temos muitos motivos para isso. Primeiro, pela falta que irás fazer a tua família e aos teus amigos. Depois, pelo exemplo de homem público que representavas para o nosso estado e para o Brasil.

No entanto, eu tenho um motivo particular para lamentar a tua morte. Depois da tua entrevista no Jornal Nacional, eu fiquei com muita vontade de te encontrar, de apertar a tua mão, olhar no teu olho e te perguntar: Quem disse que eu desisti do Brasil, Eduardo?  Infelizmente, no dia seguinte, ocorreu o trágico acidente e eu nunca vou poder te dizer isso.

Eduardo, não fui eu, nem o povo brasileiro que desistimos do Brasil.

Quem desistiu do Brasil foram setores da política e da mídia brasileira, quando promoveram o golpe militar de 1964 que mergulhou o nosso país em 21 anos de ditadura militar e que submeteu o povo brasileiro aos anos mais difíceis de nossa história. Inclusive, sua família foi vítima na carne daquele momento, quando o seu avô e então governador de Pernambuco, o inesquecível Miguel Arraes, foi retirado à força do Palácio do Campo das Princesas e levado ao exílio.

Eduardo, você não imagina o que essa mesma mídia está fazendo com a tragédia que marcou a queda do teu avião. Eu nunca pensei que um dia pudesse ver carrascos do jornalismo político brasileiro como Willian Bonner, Patrícia Poeta, Alexandre Garcia e Miriam Leitão falando tão bem de um homem público. Os mesmos que, um dia antes do acidente, quiseram associar a tua imagem ao nepotismo no Brasil choram agora a tua morte como se você fosse a última esperança do povo brasileiro ver um Brasil melhor. Reconheço as tuas qualidades, governador, mas não sou ingênuo para acreditar que sejam elas o motivo de tanta comoção no noticiário político brasileiro.

A pauta dos veículos de comunicação conservadores do Brasil sempre foi e vai continuar sendo a mesma: destruir o projeto político do partido dos trabalhadores que ameaça por fim às concessões feitas até então a eles. O teu acidente, Eduardo, é só mais uma circunstância explorada com esse fim, do mesmo jeito que foi o mensalão, os protestos de julho e a refinaria de Pasádena. Se amanhã surgir um escândalo “que dê mais ibope” e ameace a reeleição de Dilma, a mídia não hesitará em enterrar você de uma vez por todas. Por enquanto, eles vão disseminando as suposições de que foi Dilma quem sabotou o teu avião, e que fez isso no dia 13 justamente pra dizer que quem manda é o PT. Pior do que isso é que tem gente que acredita e multiplica mentiras e ódio nas redes sociais.

Lamentável! A Rede Globo e a Veja não estão nem aí para a dor da família, dos amigos e dos que, assim como eu, acreditavam que você não desistiria do Brasil. Você é objeto midiático do momento.

Eduardo, não fui eu quem desistiu do Brasil. Quem desistiu foi o PSDB, que após o regime militar teve a oportunidade de construir um novo projeto de nação soberana e, no entanto, preferiu entregar o Brasil ao FMI e ao imperialismo norte americano, afundando o Brasil em dívidas, inflação, concentração de renda e miséria. O mesmo PSDB que, antes do teu corpo ser enterrado, já estava disseminando disputas entre o PSB e REDE para inviabilizar a candidatura de Marina, aliança que custou tanto a você construir.

Eu não desisti do Brasil, Eduardo. Quem desistiu foi a classe média alta que vaiou uma chefe de Estado num evento de dimensões como a abertura de uma copa do mundo porque não se conforma com o Brasil que distribui renda e possibilita a ricos e pobres, negros e brancos as mesmas oportunidades.

E tem mais uma coisa, Governador. Se ao convocar o povo brasileiro para não desistir do Brasil o senhor quis passar o recado de que quem desistiu foi Lula e Dilma, eu gostaria muito de dizer que nem eu, nem o povo e, nem mesmo o senhor, acredita nisso. Muito pelo contrário. A gente sabe que o PT resgatou o Brasil do atraso imposto pelo nosso processo histórico de colonização, do intervencionismo norte americano e da recessão dos governos tucanos. Ao contrário de desistir do Brasil, Lula e Dilma se doaram ao nosso povo e promoveram a maior política de distribuição de renda do mundo, através do bolsa família. Lula e Dilma universalizaram o acesso às universidades públicas através do PROUNI, do FIES e do ENEM. Estão criando novas oportunidades de emprego e renda através do PRONATEC e estão revolucionando a saúde com o programa mais médicos.

Eduardo, eu precisava te dizer: não fui eu, nem o povo brasileiro, nem Lula, nem Dilma que desistimos do Brasil. Quem desistiu do Brasil, meu caro, foram os mesmos que hoje estão chafurdando em cima das circunstâncias que envolvem o acidente que de forma lamentável tirou você do nosso convívio. Fazem isso com o motivo único e claro de desgastar a reeleição de Dilma e entregar o país nas mãos de quem, de fato, desistiu do Brasil.

Descanse em paz, Eduardo. Por aqui, apesar da falta que você vai fazer a todo povo pernambucano, eu, Lula, Dilma e os brasileiros que acreditam no futuro do Brasil vamos continuar na luta, porque NÓS NUNCA DESISTIREMOS DO BRASIL.

Fonte: http://www.brasil247.com/pt/247/poder/150418/De-um-eleitor-a-Campos-N%C3%A3o-desisti-do-Brasil.htm

ANCHIETA ANTUNES

Quando piso na lousa fria e resvaladiça ( “viver”) sinto a coluna tombando para o lado obscuro da vida que se vive sob o tom do incompreensível horizonte abstrato. A razão é o lado duro da existência, aquele que risca o cristal, que rasga a carne na rocha, que bebe a areia do deserto para limpar as entranhas do inconsciente. Quem me dera saber a verdade do existir, a fábula da veridicidade escondida no antanho dos dias, quem me dera conhecer o lado interno da consciência obscura dos pingos de fel. Quem me dera viver sob olhos alertas nas madrugadas espicaçadas de sofrimento. Quem me dera…
O encantamento precisa chegar devagar, sem fazer ruído, anunciando-se com o leve torpor de um vendaval que desistiu de sê-lo. O encantamento carrega os prêmios a serem distribuídos pelos vãos das portas que se abrem para o véu da esperança. A água que jorra dos sonhos infantis, e desce a encosta à procura da paz universal. Não a paz que tem navegado no vértice da bomba assassina, paz que converte pão em poeira, que mata a esperança no nascedouro do além. Paz que se conhece no dicionário das mentes mandantes de hoje.
Por que andar em busca do encantamento se não se conhece a fórmula do encanto, nem o sabor do momento nobre.
Encantamento é bruxaria que baila na imaginação dos absortos incansáveis, nas noites escuras, apenas com língua de fogueiras que jogam para o alto labaredas para lamber as vísceras do amante desprevenido, quando deita sua amada na maciez do crepúsculo, desejando sugar sua seiva purificadora dos pecados do mundo. A inocência é o antídoto do espectro do pecador voraz, audaz, entumescido pelo demônio da depravação contida entre quatro paredes negras de arrependimentos. Encantamento é a leveza da ave que voeja sobre o córtex da cidade prenhe de desejos lúdicos.
Encantamento é aquela estrada de asfalto uniforme que nos leva aos pés da montanha enfeitiçada, onde as crianças deitam seus sorrisos puros, quando estão brincando de ser alegre, com inocência, e candidez. Encantamento é o grito que não sufocou na garganta, que absolveu todos os pecados do mundo, dos homens e dos bichos, que expandiu o espírito benévolo, devolvendo para os corações a exultação da boa ação. Encantamento não é a vestimenta da crueldade, da vingança, da inveja e da vaidade. Vamos nos adornar de contentamento, vamos subir nos sapatos da esperança e da alma leve, sem arrogância, sem pecados,
nem mortal, nem originai.
Encantamento é o direito restrito dos inocentes.

ALAOMPE
Anchieta Antunes – Copyright
Gravatá – 05/08/2014.

ANCHIETA ANTUNES

Nas leivas aradas e prontas
deita o varão as sementes,
e este homem abatido
ouve o ciciar dos pássaros
que indolentes
consomem o trabalho
de seu corpo dorido.

Trina a canção da aragem
em tempos austeros
trina na aresta
cortante e selvagem
nos campos severos,
guarda da vida a rudeza
e justapõe a ela
sua intrínseca beleza.

No canto da casa ele acende
a tocha estóica da paz
e deita na calada rocha
sua cabeça prateada e fugaz.
Assim quando a noite
traz o repouso
e a quietude eterna,
a rocha e sua fleuma
perdem a dor e o medo
e lá ao longe
na aresta cortante e selvagem
ouve trinar
a bela canção da aragem.
ALAOMPE
Anchieta Antunes – Copyright
Gravatá – 31/07/2014.

ANCHIETA ANTUNES

Nos confins do mundo, numa ponta de praia, ou em cima de uma pequena ilha, o Farol aterrorizado eternamente pelo murmúrio do mar, sofre a desproteção de uma mão amiga. O mar que balança incansável no seu vai e vem, e que tenta aproximar-se da vida na diminuta ínsula, molha os pés do velho Farol, e o enche de temores e solidão.
Os pais em qualquer parte da vida, sofrem no medo do filho os temores da perdição, que caminha audaz e altaneira pelos campos arados de vícios.
O chacoalhar das marolas nas pedras formam bolhas que mais parecem os olhos esbugalhados dos sapos noturnos, perscrutando a noite salpicada de brilho faiscando nas cristas das ondas. O céu furado de estrelas estende seu manto diáfano sobre todas as noites solitárias.
Escondidos nas noites escuras, estão a droga, o vicio e a repetição, a banalização do caráter, da vida, da retidão.
O Farol que se lança para o desconhecido como se fosse um aríete louco derrubando a cidadela da noite, ilumina segredos íntimos, devassa catedrais ocultas nas dobras do manto noturno, empurra a gaivota que em seu vôo retardatário, risca de branco o cone de luz; o Farol não serena a noite toda, laborando sua jornada, alertando os imprevidentes, acordando os sonâmbulos, vergastando os preguiçosos; não sossega enquanto não enxerga no horizonte os primeiros albores, momento de seu repouso.
Os pais lançam-se audazes contra o furor da delinquência que palpita nas ruas noturnas que levam os jovens pra casa. Só basta uma prova, e o brilho dos olhos apaga-se para sempre.
O dia, que navega o firmamento de um lado a outro, quando decide ir dormir no fundo do mar, passa no recanto do Farol e cochicha de mansinho em seu ouvido: “acorde, meu velho amigo de todas as noites, e vá salvar as almas perdidas nas vagas noturnas de um oceano indômito, norteie os que choram a saudade da vida que está por um fio, indique o caminho de casa para os que vagueiam ao léu, resgate a esperança de tantos que sofrem a solidão do abandono”.
No labirinto da vastidão de oportunidades, os pais precisam unir forças para resguardar a cidade intima do jovem inexperiente que navega os mares da urbe, caminhando de vão em vão, a curiosidade do desconhecido espúrio. Não há repouso enquanto o filho não dorme limpo de desejos, distante da língua venenosa da víbora que rasteja incólume pelos caminhos da fraqueza juvenil; só então os pais dormem o sono do dever cumprido, a alegria de um filho inteiro e sadio.
O grande olho desperta para a noite envolvente, brilha a salvação dos quase náufragos, faz renascer a promessa de vida para quem estava em desespero de morte. Como um raio mudo vai penetrando sorrateiramente na paisagem brumosa do primeiro escurecer, impelindo para longe do precipício a nau distraída; o Farol, com seu longo braço de luz estendido para o infinito, tem sua silhueta desfeita no corpo da escuridão. Trabalha doze horas ininterruptas, e quando o dia, preguiçosamente, desperta para brilhar
O FAROL DORME

ALAOMPE
Anchieta Antunes – Copyright
Gravatá – 30/07/2014.

ANCHIETA ANTUNES

Pra quê deblaterar contra a força de tendências obscuras, de vontades egoístas, de movimentos sorrateiros? Como aprender a caminhar no submundo de movimentos escusos, impuros; aprender a marchar no lodaçal com vermes engolfando-se em camadas pútridas e tilintantes.
Navegar na noite sem lua, distante dos ventos, em meio aos ruídos dos insetos, debatendo-se com a coruja, em vôo rasante, chocando-se com a cornija saliente da teimosia; todo este esforço não passa de uma jornada inglória, destinada ao fracasso, quando não se busca lisura, justiça. Este não é o ambiente propicio para a probidade progredir com seu andar solene. Melhor fechar os olhos e acordar em outras paragens plangentes.
Quando eu morava naquela casa isolada, na extremidade da rua, rodeado de terrenos de terceiros, cobertos de árvores e arbustos, emprestando-nos sombra, e vento fresco, e quando chegava tarde da noite com minha mulher, não tínhamos nenhum receio de sermos atacados por bandidos com armas nas mãos, não tínhamos medo de sequestro, não pensávamos em nenhuma violência, isto porque contávamos com um efetivo policiamento, e havia nos pratos da plebe, o indispensável alimento. Não se aninhavam em nossos corações medos e receios. Éramos livres e felizes como passarinhos no sitio. O maior medo era o de perder a hora de assistir a novela das oito.
Naquela época as casas não eram nossas presídios, as janelas não eram decoradas com grades de arabescos, pintadas de branco, de azul e cor de rosa. Tanto fazia lá dentro como lá fora, a liberdade era a mesma, a paz era nossa eterna companheira. O travesseiro servia para acolher a cabeça e não como arma de sufoco.
A brisa dividida escondia-se atrás de cada folha, espreitando-nos, e, quando nos via, vinha ligeira ao nosso encontro para brincar de correr, de voar, de soprar. Éramos amigos, companheiros e compartilhávamos nossos momentos lúdicos. Eu e minha companheira abríamos a porta do dia para nele entrar sem cerimônia, dispensando convites sóbrios, para entrarmos como amigos que éramos. A vida era um eterno sarau, onde os convidados degustavam aventuras audazes, dançavam ao som de melífluas gargalhadas, rodopiavam no grande salão do respeito e da decência. Nosso comportamento sempre foi translúcido como água de regato na floresta virgem.
Hoje os tempos são diferentes, até o sol é político e negociador nos corredores escuros da indecência. A vergonha vive escondida na Catedral do Dever Não Cumprido. Não pode mostrar sua cara sob pena de desaparecer nos escaninhos dos ministérios.
A alegria da vida está restrita aos lobos das estepes espúrias, sempre famintos de novas moedas, de grandes “contêineres” cheios de materiais dourados, de pérolas indecorosas transferidas das cavernas dos Ali Babas palacianos.
Correr nas ruas, jogar vôlei no campinho de terra negra, com os vizinhos amigos, brincar com as crianças das mães zelosas, comer do churrasco comunitário… nada disto existe mais, não existirá mais, não enquanto me dure esta vida de centurião romano, com a lança em punho guardando a vida da família. Imploramos que Esdras venha nos socorrer a todo momento, a cada dia que brilha na vila, impetramos a ele o dever da proteção enquanto cidadãos que somos. Virá?
Somos o guardião do cofre da vergonha, que os pútridos políticos lançaram na sarjeta do Congresso Nacional, onde os dejetos são o alimento diário da raça de homens desalmados.

ALAOMPE
Anchieta Antunes – Copyright
Gravatá – 24/05/14.

 

O GRITO

Enclausurado na solidão da agonia,
no desamparo do sofrimento,
no precipício do ultimo suspiro,
o grito,
que pode salvar a alegoria da paixão,
a serenidade do amor,
e o entrelaçamento de mãos extremosas
na caminhada da eternidade.

Sob a luz do lampião
o calçamento adormecido por séculos sem fim,
guarda na memória todas as palavras
dos amantes passeantes,
no silvo dos ventos azuis
dos olhos chamejantes
das palavras púrpuras
e do encantamento.

Juvenil desabrochar
da mais pura historia interrompida
pelas mazelas da fatalidade,
do entardecer de distorções prevalecentes
de um elo mais forte que a vida.
Sobrevivente das teias
de um destino nefasto.
Aziago escusado pela eterna amante
de um amante distraído,
pelos sois de cada dia
pelas gotas de cada suor
pela prostração de cada noite,
de cada minuto transcorrido no catre solene da solidão,
e da saudade esquecida nas dobras dos tempos
de cada momento sofrido.

O grito,
que veio para estabelecer-se
nas paredes do casario do amor eterno,
nas veias pulsantes do vibrante deleite
da imagem presente em cada fimbria
de outras vidas…
Eternizadas nos tempos de hoje,
divididas em dois corpos,
unidas nos mesmos pelas correntes da paixão.

Perpetuadas para todo o sempre.
ALAOMPE
Anchieta Antunes Copyright
Gravatá – 13/07/2014.

Comprar e vender produtos pela Internet são práticas cada mais comuns. Junto com essa tendência cresce o número de serviços de pagamento online, chamados também de carteira digital, que servem como intermediadores entre consumidores e comerciantes, sejam eles grandes lojas ou vendedores autônomos. Para ajudar a escolher um serviço, veja a lista com cinco opções de pagamento virtual.

O que é HTTPS e como ele pode proteger a sua navegação na Internet

Plataformas como PayPal já são extremamente populares em lojas virtuais. Outras, como o Google Wallet trazem a tecnologia da carteira digital. Ainda pouco difundido no Brasil, o recurso transforma celulares e tablets em cartões de crédito e permitem realizar transações financeiras de forma simples.

1) PayPal

O PayPal é o mais popular serviço de pagamentos via Internet. Pioneiro no segmento, ele serve tanto para quem quer comprar quanto para o internauta que deseja vender algum produto online. O sistema funciona como um banco que armazena dados pessoais e bancários, oferecendo a vantagem de não repassar ao vendedor as informações do comprador, como o número do cartão de crédito, funcionando como um intermediário da compra via Internet. O consumidor paga ao PayPal, que paga para a loja.

O que é Paypal e como funciona o serviço?

O recurso também devolve ao consumidor o valor do produto, caso este não seja entregue. O PayPal aceita pagamento por cartões de crédito, parcelando em até 12 vezes, além de permitir o débito em conta e oferecer o PayPal Mobile, que permite fazer pagamento em lojas físicas por meio do celular ou do tablet. O cadastro, download do aplicativo e a utilização na web e no celular são gratuitos, mas para transações internacionais pode haver cobrança de taxas de conversão de moeda e impostos.

Adicione um dos seus cartões ao PayPal (Foto: Divulgação/Paypal)Adicione um dos seus cartões ao PayPal e utilize para pagamentos online (Foto: Divulgação/Paypal)

 

2) Google Wallet

O Google Wallet é a carteira virual do Google. Funciona como um aplicativo para Android e iOS, desenvolvido para facilitar qualquer tipo de pagamento online, inclusive entre amigos e familiares. Se o consumidor já tiver usado o Google Checkout anteriormente, ele já tem um cadastro. O serviço permite receber ou pedir/cobrar dinheiro, e faz o controle do seu orçamento automaticamente.

Outra característica peculiar é a capacidade de armazenar dados dos seus cupons de presentes e programas de fidelidade. Basta que o usuário cadastre os números dos cartões para fazer compras online, que também podem ser realizadas com dinheiro. Nesse caso, é cobrado 2,9% do valor da transação, enquanto que para receber não há taxas. O aplicativo ainda não está disponível no Brasil. Porém, é possível criar uma conta e usá-lo via web para fazer transações em lojas internacionais.

Google Wallet, app para Android e iOS que permite pagamentos online (Foto/Divulgação) (Foto: Google Wallet, app para Android e iOS que permite pagamentos online (Foto/Divulgação))Google Wallet, app para Android e iOS que permite pagamentos online (Foto/Divulgação)

 

 

 

 

 

 

 

3) MercadoPago

O Mercado Pago é a plataforma do Mercado Livre, site de compra e venda online, para receber pagamentos de transações via Internet, realizadas pelo site e aplicativos para dispositivos móveis. Ele é destinado para quem está vendendo produtos ou serviços, sendo cobrado 4,99% por cada pagamento aprovado fora do MercadoLivre, onde o comércio é isento de taxa.

Os clientes podem pagar via cartão de crédito, com parcelas de até 12 vezes, ou com boleto bancário, à vista. O valor é creditado na conta do MercadoPago, da qual pode ser transferido para a conta bancária do usuário. A plataforma também oferece administração dos pagamentos e prevenção de fraude.

MercadoPago não cobra taxas para quem usa o Mercado Livre (Foto: Divulgação/Mercado Pago)MercadoPago não cobra taxas para quem usa o Mercado Livre (Foto: Divulgação/Mercado Pago)

 

4) Pagamento Digital Bcash!

Atualmente chamado de Bcash!, o Pagamento Digital é uma plataforma do Buscapé que faz a intermediação de transações financeiras para compradores e vendedores. Seu diferencial é o limite de crédito, que funciona de forma similar a de um cartão, possibilitando compras até uma quantia determinada (R$ 1 mil para pessoa física e R$ 2 mil para empresas). É possível aumentar esse limite, mas para isso é necessário comprovar titularidade, endereço e conta bancária. Assim como os concorrentes, cadastro e uso são gratuitos com cartão de crédito e boleto bancário.

Bcash!, o antigo Pagamento Digital, é do Buscapé (Foto: Divulgação/Mercado Pago)Bcash!, o antigo Pagamento Digital, é do Buscapé (Foto: Divulgação/Mercado Pago)

 

5) Moip

O Moip é um intermediador de pagamentos online que tem como atrativo uma poderosa ferramenta de verificação de fraude. Seu algoritmo implementa mais de 400 regras de análise em cada processo e, caso verifique algum problema, a transação passa por avaliação humana.

Segundo os termos de uso do Moip, o sistema conta com 15 opções de pagamentos online, abrangendo cartões de crédito, débito, boleto bancário, débito em conta e pelo celular. Além disso, o sistema permite definir a quantidade de parcelas para pagamento à prazo (até 12 vezes), antecipa o recebimento do valor do produto em até dois dias e não exige cadastro dos compradores.

Pagamento online com Moip é aceito em diversas lojas brasileiras (Foto: Divulgação/Moip)Pagamento online com Moip é aceito em diversas lojas brasileiras (Foto: Divulgação/Moip)

Por Anchieta Antunes

Não sei exatamente onde aconteceu este acontecido; talvez na America do Sul, ou quem sabe entre os “Comanches”!
O fato é que houve um “chamado guerreiro raquítico”; não que ele fosse guerreiro; raquítico sim, ele era.
Quando a mulher – “BUNDA ARRIADA – do “Cacique”- “CABEÇA DE VENTO” embuchou, ele foi logo dizendo:
_Meu filho vai ser o mais aguerrido guerreiro da nossa tribo, vai ser o chefe dos grandes lutadores, o nosso “general” intrépido e invencível. “que vengan las peleas”
Esclarecimento: Bunda Arriada: não precisa nem esclarecer, é só
olhar pra figura; ela não está transportando nenhuma trouxa de roupas sujas nas costas, é a bunda descaída, mesmo.
Cabeça de Vento: este nome vem do fato de o Cacique gostar de exibir uma imensa cabeleira, e nos campos “descampados”, quando o vento sopra forte, seus cabelos esvoaçam turbilhonado como hélice de avião em 5.000 rpm.
Todo mundo sabe que tribo de indígenas não tem general, mas nesta estória é como se tivesse, só para simplificar o conto. Acontece que “GUERREIRO EXALTADO” (este foi o nome que o Cacique deu ao filho ainda na barriga da mãe) quando completou 10 anos, saiu para aprender a caçar com o tio – Pena Branca – e os dois, que não haviam olhado para o céu, agarraram uma chuva daquelas de arrancar pinheiro pelo tronco.
No dia seguinte Guerreiro Exaltado estava de cama com uma gripe dos seiscentos diabos, e de gripe evoluiu para uma terrível pneumonia. Flecha Quebrada montou seu azarão, digo, alazão, e foi buscar Juan Mendes, o médico de família, cubano, encarregado daquela tribo de simpáticos guerreiros.
Guerreiro Exaltado escapou da morte por chuva, mas teve que trocar de nome. Cabeça de Vento queria mudar o nome dele para “VENCIDO PELA CHUVA”, no entanto seus parentes mais próximos acharam que seria uma tremenda humilhação, por isto resolveram se aconselhar com o “CONSELHO DE GUERRA”. O Conselho de Guerra, dialogou por três dias e não chegou a uma conclusão, por isto resolveram se aconselhar com o “CONSELHO DA PAZ”.
O Conselho da Paz, que está acostumado a resolver os grandes pepinos da tribo, logo encontraram uma solução, ou seja, um nome apropriado para Guerreiro Exaltado, e o Chefe do Conselho da Paz, aconselhou o Conselho de Guerra a mudar o nome do guerreiro vencido, para “GUERREIRO RAQUÍTICO”.
Tudo tem uma explicação, e a explicação para raquítico, é porque ninguém na tribo sabe o que é raquítico, a não o chefe do Conselho na Paz. 2- na tribo não tem dicionário; 3 – ninguém é maluco de perguntar na cidade mais próxima do “faroeste” o que significa raquítico, pois seria uma declaração de ignorância. Quem quer ser ignorante? Eu não quero!!!
Flecha Quebrada, que vivia treinando “flecha ao alvo”, atirando flechas numa árvore perto de uma grande rocha, não acertava nunca na mangueira; a rocha estava riscada de pontas de flechas rascantes, embora suas flechas não fossem adstringentes.
Guerreiro Raquítico e Flecha Quebrada eram grandes amigos, e viviam pescando no rio, quando os Conselhos acampavam perto de um. Quando não havia água por perto, eles entravam na floresta para caçar passarinho com “baladeira” “estilingue” “funda” etc.
Guerreiro Raquítico, por ser raquítico nunca subiu num cavalo, por isto mesmo nunca foi para uma guerra, que por sinal já fazia 50 anos que não havia guerras para ser lutadas, o que significa que G. R. morreu sem guerrear, coitado.
Flecha Partida continuou treinando flecha ao alvo sem nunca acertar nem um tronco de imbaúba. Coitado também.
Como o protagonista da historia morreu, vou ter que terminar dizendo que “ESCOLHAM BEM OS NOMES DOS SEUS FILHOS, PARA EVITAR TRAUMAS IRREVERSIVEIS”.

ALAOMPE
Anchieta Antunes
Copyright
Gravatá – 20/07/2014.

POR ANCHIETA ANTUNES

Ele estava escarranchado lá na ponta do velho muro sem reboco, de bermuda rasgada, os pés pendurados sem as sandálias, os ombros caídos e o olhar derramado sobre o pedregulho e poças de chuva. Ele morava numa manilha de adutora; ali ele pendurava sua rede, olhava-se no pequeno pedaço de espelho preso na parede; na trempe de ferro cozinhava seu mingau diário. Com a cabeça prateada e a barba por fazer com aquela navalha cansada de raspar seus pelos hirsutos e grisalhos, o ancião caminhava nas velhas e conhecidas ruas do lugar. Olhava o acontecido que fazia pouco tempo de acontecer. Devastação. De vez em quando os olhos baços escorregavam pra cima como que para lembrar o que tinha visto. Foi assustador; também foi emocionante.
Começou com o mundo escurecendo em pleno dia. Que será que está acontecendo? Perguntavam todos. As portas da frente e do quintal eram poucas para dar vazão a tanta gente curiosa. Todo mundo correndo pra rua ou pro quintal, pescoço esticado, mão em pala e o olhar assustado, como se estivessem vendo o fim do mundo; ou o começo do fim.
Os meninos sorriam e choravam ao mesmo tempo, com um medo medonho. Os menores agarrados na saia da mãe, as meninas de mãos dadas com o pai. Parecia a confraternização do horror, a janela do holocausto, o som binário do trovão rouco e cansado das alturas. Aquela massa escura não mostrava nenhuma brecha de boa vontade, de benevolência. Parece que tinha vontade de sufocar o mundo todo com seu manto escuro e indevassável.
O velho estava em sua morada, resguardado pela altura, protegido pelo fatalismo. Dalí ele via tudo e nada podia atingi-lo; de lá ele observou ao redor, e percebeu a aproximação do desastre, que vinha chegando pintado de negro, e do vermelho escorrendo na palheta do momento angustiante.
Mais pra baixo, pros lados da Estação, sob a alameda de jambeiros, o homem vinha pedalando sua bicicleta com total displicência, como se tivesse toda a eternidade à sua espera. No caminho sem trânsito, algumas charretes cavalgavam em direção a algum interesse humano, perto ou longe. O ciclista olhava para um lado, para o outro, procurando ver a corrida aflita de uma lebre, de um coelho, de algo pulsante para prover seu jantar e o de sua morena dengosa. Em nenhum momento levantou os olhos para o céu aterrador, ainda silencioso.
No campinho onde a meninada da escola brincava de criança desprevenida, o vento irreverente levantava a poeira; alguns galhos secos e papeizinhos de bombons: apenas trocando de lugar aquele lixo lúdico e irresponsável. Não havia ninguém a descoberto. O céu conjurava em assembléia. O velho observava…notou a falta daquele menino que sempre jogava sozinho com uma bola de borracha. Nem ele estava preenchendo um pedaço do espaço do campinho.
O sino da Capela começou a dançar, empurrado pelo vento que chegou com força e rugindo entusiasmo. O badalar soava sonoro e aterrador, prenunciando a chuva transformar ruas em rios. Não demorou muito!
De repente, mais rápido que o passamento, o ciclista foi jogado contra o tronco, onde ficou preso pelo impacto, juntando sua seiva vermelha à da arvore; em alguns dias serviria apenas como adubo orgânico. Morreu antes do coelho.
O sol amedrontado recolheu-se mais cedo; foi dormir pacificamente no fundo do horizonte, onde descansam as lembranças, onde dormem os amores eternos, onde a memória perde o brilho da vida, onde o coração dormita seu ultimo alento.
O manto pegajoso e de olhos bem abertos roncava seus trovões assustadores, preenchendo o eco vazio da serra distante, retalhando os ventos passantes, enchendo o mundo todo de rancor, de pavor, de horror. Ameaçava lançar-se de uma só vez, como se fosse um balde jogado ao acaso. Eram milhões de metros cúbitos de água grossa e traiçoeira. Nenhuma alma hidrófoba conseguiria nadar na sua trajetória de redemoinhos endiabrados. Arriou como o cansaço arria o homem cansado do cabo da enxada mexendo na roça. Chegou para destruir e depois ir embora, como se não tivesse feito nada de mal. Pura natureza.
Rios inteiros desabaram de uma só vez; os relógios pararam por três horas, três anos, por todos os séculos. As veredas, ruas, becos e estradas estavam embaixo d’água, como se um grande Nilo tivesse vindo deixar seu limo vivificador sobre a terra inerte. Um grande espelho ondulante deslizava vale abaixo refletindo a luz do sol ressurgente. A fúria liquida havia trocado nas casas, os móveis por lama pura e fétida. Os telhados foram transformados em leitos, em berços, em pesadelos recorrentes.
Uma semana depois o esqueleto da vila estava à mostra, caveira suja sem vida, carente do sopro de Deus. Pedras soltas junto à parede da casa em desalinho, galhos inteiros e uma árvore com um corpo pregado no tronco; não muito distante uma roda de bicicleta retorcida como um pensamento cruel.
Sobrou uma horda de órfãos: órfãos de pais, mães, tios, primos, irmãos, avós, amigos, namoradas, vizinhos, rivais, antagônicos, e os apenas conhecidos da bodega da esquina, onde se tomava, todas as tardes, a cachaça do congraçamento. O lugar estava triste: todos estavam tristes.
Da cumieira do rancho o menino guardava com cuidado dobrado, a sua bola de borracha.
O velho continuava balançando-se na sua rede, com o mingau pronto para ser sorvido. Sua manilha estava seca como sempre esteve; o espelho estava ali, preso à parede, suas sandálias atiradas ao deus dará, e sua vida não sofrera nenhum revés. Apenas havia caído uma chuva forte lá em cima na adutora. Ah! Na cidade também. E ele, o velho continuou ali tão somente como
O OBSERVADOR

Só perde o que tem
quem tem o que perder.

“Santa Catarina – Rio Grande do Sul – Japão”

ALAOMPE
Anchieta Antunes
Copyright
Gravatá- 19/07/2014.

ANCHIETA ANTUNES

Fiquei muito chateado e tive um bate-boca sério com ele, que entrou no meu quarto com uma voracidade incrível, escancarando minha janela como se fosse o dono da casa; mal educado e arrogante, não teve nem a delicadeza de mandar uma brisa avisar que estava chegando para uma visita de cortesia. Cortesia coisa nenhuma, foi abrindo revistas, revirando as folhas do livro que estou lendo, levando o lençol para o outro lado da rua dos sonhos, batendo portas e derrubando o jarro de cristal que a minha mulher tanto gosta; ela ficou desolada, embora a peça de seus sonhos não tenha sido quebrada. Todos no quarto e na sala ficamos assustados com o despudor, com o comportamento predatório do elemento ufano. Ele continuou percorrendo toda a casa, como se estivesse procurando alguma coisa importante. Não estava em busca de nada, era pura curiosidade.
Fiquei indignado quando ele tentou me subornar, dizendo:_eu conheço muitos segredos que posso revelar para você!
_Segredos? Quais segredos, segredos de quem, e para que quero conhecer os segredos de outras pessoas?
_Conheço todos os segredos da natureza, como também das pessoas, inclusive figuras importantes da sociedade. Quer que lhe diga? Pelo menos é uma maneira de me desculpar pelos estragos que fiz na sua casa; por sinal, percorri sua casa toda e não descobri nada interessante, que coisa mais sem graça!
Eu não tenho, nem minha família tem segredos! Apenas carregamos calados nossas dificuldades, que ninguém precisa saber, principalmente porque não vão resolver nada.
Ele me revelou umas coisinhas que me deixaram bastante intrigado, por exemplo: quando ele está descansando em sua caverna predileta, lá no Himalaia, recebe ordens de destruir cidades inteiras, arrasar vales e montanhas, tudo na sua forma mais furibunda, e assim, de um momento pra outro, não tem nem tempo de se espreguiçar, bocejar e soltar os suspiros matinais. Ele desce da Cordilheira de olhos fechados para não ver o estrago que vai deixando atrás de si, como um maluco endiabrado, não deixa pedra sobre pedra; e o pior de tudo é que é aconselhado a não sentir remorso.
Ele tem um irmão que adora vaguear por entre as árvores das florestas, alisando o dorso das feras, quebrando galhos pendentes, derrubando pássaros passantes. Escuta a conversa dos papagaios, observa o namoro do uirapuru, e grita com a araponga, depois vai arrepiar a nudez do igarapé, e não deixa de se escarranchar no último galho da samauma.
Na praia ele empurra a “caravela” para a beira-mar, deita-a na areia e fica esperando as crianças virem brincar com o ácido azul. Não faz isso por maldade, apenas obedece sua natureza.
No “Sertão”, um primo pobre do nosso amigo gigante, chamado “pé de vento” aparece do nada, levanta poeira, alguns galhos secos, e vai embora deixando pra trás o som de sua gargalhada por ter assombrado um monte de passantes. O pé de vento é rápido como um raio, e sobe no ar espiralado, rodopia e desaparece como alma deambulante. É filho único.
Pois é, meu amigo vento chega quando quer, sem avisar, e muitas vezes quebrando tudo que encontra pela frente, como se fosse o dono do mundo. Ele é irreverente e audaz, não pede licença, nem se desculpa por nenhuma desfeita. É atrevido como a luz do sol, só respeita as cavernas profundas, onde não consegue penetrar.
Meu amigo vento pode ser chamado de

“tornado” “furacão” “tufão”, “vendaval”, “ciclone”, “redemoinho”, “tempestade”.“aragem” “brisa” e apenas “vento refrescante”.

ALAOMPE
Anchieta Antunes
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Gravatá- 16/07/14.

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