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ANCHIETA ANTUNES / GRAVATÁ PE

 

Vi a dor cruel

rasgando as entranhas

do meu amigo Chico,

vi o brilho morto

de seu olhar distante,

perdido no baú das desilusões.

 

“Minha Pombinha”

assim ele a chamava;

chamava a sua Claudia,

a esposa, a companheira,

confidente, amiga,

protetora, sábia;

a cumplicidade entre os dois

permeava uma vida nobre

de entendimento, de postura,

e confiabilidade.

 

Os dois sorviam

da mesma água de vivência

em comum, para saciar

a mesma sede de vida,

de louvor a Deus,

convalescendo

cada mazela diária,

curando as raízes

dos pensamentos

profanos,

na liturgia da cura

espiritual,

alimentada

pela fé.

 

Fé no invisível,

na crença do divino,

fé na força de cada um;

no espírito forjado dia a dia.

na procura de novas verdades,

antes do anoitecer dos tempos.

.

 

Chico está sofrendo

a ausência de sua

segunda pele,

de seu primeiro amor,

de seu sonho harmonioso,

seu riso espontâneo

sua razão existencial.

 

 

 

 

Ele apenas espera

o reencontro glorioso

no espaço sideral,

na nuvem dos anjos,

nas asas da felicidade eterna,

encontrada na vida após vida.

 

Chico quer,

Chico vai

novamente

encontrar-se

com seu

único amor.

 

Boa viagem

meu amigo

unam-se

dois em um

pelo restinho

da eternidade.

 

.

Anchieta Antunes

Dezembro – 15/2014.

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ENVIADO POR ANCHIETA ANTUNES

POSSE   DA   NOVA   DIRETORIA   DA   ALAOMPE

Dia 22 de novembro de 2014 – Aconteceu às 19:00 horas no

Salão Nobre da Academia de Letras, Artes e Ofícios Municipais de Pernambuco – ALAOMPE.

Iniciou-se o ato com as palavras de boas vindas da Secretária Geral da ALAOMPE, Dea C. Coirolo Antunes, que convidou os presentes para cantar o Hino Nacional Brasileiro, junto ao Coro Madrigal de Caruaru. P

Para nosso deslumbramento compareceu o Coro, que abriu a solenidade cantando o Hino Nacional Brasileiro. Todos nós cantamos com entusiasmo e vibração patriótica. Outras peças foram interpretadas com absoluta fidelidade musical. As mulheres e os homens que compõem o Coro são formidáveis e dedicados sob a direção de uma excelente Maestrina. Eu continuaria ouvindo-os pelo resto da noite, mas a roda da vida não para e havia gentes a se apresentarem na engrenagem dos afazeres acadêmicos e culturais. Depois dos aplausos dos presentes, e a sessão de fotos, o Coro retirou-se para cumprir outra apresentação agendada.

A Secretária Geral agradeceu a presença de convidados especiais, a saber: da Academia Morenense de Letras e Artes, Acad. Telma Suely Vieira Costa; da Academia de Letras de Jaboatão dos Guararapes, Acadêmico James Davidson; da Academia de Letras de Gravatá, Vilma Monteiro, Terezinha Carvalho, Carlos Lippo, João Gabu, Gibson Barreto, e Josias Teles.

O primeiro a falar, ou melhor, a tentar falar, e impedido pelo excesso emocional, foi nosso querido confrade Elinaldo Xavier Costa, presidente em exercício, ao tempo em que transmitia o cargo ao ingressante, colega José Airton de Santa Cruz. Elinaldo agradeceu o apoio que recebeu de todos os Acadêmicos durante os quatro anos que durou sua gestão como vice-Presidente e Presidente da ALAOMPE. Agradeceu a Deus que o inspirou durante todo esse tempo, impedindo-o de cometer erros ou equívocos. Com simpatia e satisfação transmitiu o cargo de “Presidente da Academia de Letras, Artes e Ofícios Municipais de Pernambuco – ALAOMPE – AO NOBRE COLEGA JOSÉ AIRTON SANTA CRUZ”, sob aplausos de todos os presentes.

         O colega Airton, antes de usar da palavra, temperou a garganta duas ou três vezes, como para lubrificar as cordas vocais, afastar a emoção para o fundo do peito, e discorrer com clareza e liquidez sua prece de inauguração de um novo tempo que naquele momento iniciava. Enalteceu a gestão anterior, agradeceu o apoio e colaboração de todos os presentes, e disse da seriedade da Academia nos tempos vindouros, já que são muitos os propósitos estabelecidos para o próximo biênio. É claro que assusta o panorama futuro, mas ao mesmo tempo é um desafio digno dos grandes empreendedores, das pessoas que acreditam na disseminação da cultura, das letras escritas, faladas, declamadas em praças publica, em auditórios, nas salas de aulas, e nos eventos culturais de modo geral. Cultura, ação e filantropia é o grito de guerra. Queremos vencer os obstáculos; vamos vencê-los juntos, de mãos dadas, consagrando às letras nossas almas, e nossas ações.

A continuação, o Acadêmico Honoris Causa da ALAOMPE, Josias Teles, que também é um muito ativo Acadêmico da ALAG– Academia de Letras e Artes de Gravatá, proferiu seu discurso, estimulando a nova diretoria a desbravar novos horizontes, a alcançar novas metas acadêmicas e seqüenciais de um movimento que vem sendo perseguido desde a fundação da ALAOMPE em 15/11/2009. Em seguida a pedido meu, leu o discurso escrito pelo Vice-Presidente em fim de gestão, o Sr. Lenilson Xavier da Costa, já que não pode comparecer por motivo de força maior. Lido o discurso de Lenilson, pelo Acadêmico Honorário, Josias Teles com sua voz de barítono, os presentes aplaudiram com entusiasmo as palavras do Lenilson Xavier. Eu, como Vice-Presidente desta gestão que ora se inicia, disse algumas palavras, agradecendo tudo o que foi alcançado na administração anterior, pondo-me à disposição do Presidente em exercício, e estimulando todos os Acadêmicos para o desenvolvimento e progresso de nossa confraria de letras.

Usou da palavra a nova Assistente Jurídica, Sra.   Paula Yonara Barbosa; a Bibliotecária, Srta. Izaura Tatyane de Lima Coelho   e a 1ª Secretária, Mariana Helena de Jesus, a nova Diretora de Cultura Luciane Silva, e por último a Secretária Geral, Sra. Dea Coirolo Antunes.

Para encerrar a cerimônia, a Secretária Geral, Sra. Dea Coirolo, conclamou os presentes a darem-se as mãos para rezar um “Pai Nosso que Estais no Céu”.

Finalmente foi servido um coquetel, com salgadinhos, doces, bolos, champagne, e refrigerantes.

Estávamos todos fartos de letras, de emoções várias e de quitutes variados.

O calor familiar nos chama para o aconchego do lar, das opiniões diversas, quem sabe, algumas críticas, elogios, e expectativa de um futuro incerto.

Foi uma noite inesquecível, cheia de momentos de muita emoção, troca de louvores e confraternização.

Estivemos o tempo todo sob a égide de Jesus, que nunca nos abandonou nem vai abandonar. Que Deus resguarde nossos frágeis corações.

 

Anchieta Antunes

Bezerros, 22/11/2014.

 

CERIMONIAL DA POSSE DA NOVA DIRETORIA DA   ALAOMPE.

DIA 22/11/2014.

 

Boa noite a todos, sejam bem vindos os confrades, confreiras, amigos e convidados

especiais. Pedimos encarecidamente que assinem o Livro de Presença.

Convidamos para formar a mesa o Sr. Elinaldo Xavier, Sr. Lenilson Xavier, Sr. Edgar

Lino, Srta. Elaine Maria dos Santos, e OUTROS.

Neste momento solene vamos ouvir e cantar o Hino Nacional Brasileiro.

Tenho o prazer de passar a palavra ao nosso querido Elinaldo Xavier Costa, Presidente da

ALAOMPE.

Agora vamos ouvir a palavra do nosso querido Vice Presidente, Lenilson Xavier.

Tenho a grata satisfação de anunciar a formação da nova Diretoria da Academia de Letras,

Artes e Ofícios Municipais de Pernambuco.

Presidente: José Airton de Santa Cruz;

Vice Presidente: José Anchieta Antunes de Souza;

Assessora Jurídica: Paula Ionara Barbosa de Lima

Secretária Geral: Dea Garcia Coirolo Antunes;

1ª Secretária: Mariana Helena de Jesus;

Tesoureira: Elaine Maria dos Santos;

Bibliotecaria: Izaura Tatyane de Lima Coelho;

Diretores de Cultura: José Robeval de Lima, Janete Campos de Lima, e Maria Luciane da

Silva;

Conselheiros: Elinaldo Xavier Costa, Lenilson Xavier dos Santos, Dr. José Arlindo Gomes

de Sá, Carlos Antonio Mendonça da Silva, Severino Alves da Silva, Maria da Paz Oliveira,

e Severino Otavio Raposo Monteiro.

Por favor, Acadêmicos da nova Diretoria, todos de pé, para fazermos o juramento de

fidelidade e trabalho da nova diretoria.

A Secretária faz a leitura e vocês repetem.

 

 

 

“COMO ACADÊMICOS DA ALAOMPE, HOJE OCUPANDO OS RESPECTIVOS

CARGOS DE UMA NOVA DIRETORIA, JURAMOS TRABALHAR EM FAVOR DA

CULTURA PERNAMBUCANA, EM SUAS DIFERENTES MANIFESTAÇÕES:

LITERARIAS, ARTITICAS, E ARTESANAIS, COM A FINALIDADE DE HONRAR O

MELHOR DOS ESPIRITO HUMANO. ASSIM SEJA, AMÉM”.

 

TODOS OS ACADÊMICOS PRESENTES PROMETEMOS   SOLENEMENTE  

RESPEITAR   E   TRABALHAR   EM   PROL   DOS ANSEIOS E   OBRIGAÇÕES   DA  

ALAOMPE,   REALIZANDO   ATOS   PUBLICOS   DE   LITERATURA   E  

CULTURA,  COM   A   COLABORAÇÃO DE   TODOS   OS   INTERESSADOS,

COMO PREFEITURA, E SECRETARIAS MUNICIPAIS, PROFESSORES,

ALUNOS, BIBLIOTECARIOS, HISTORIADORES, ARTISTAS E ARTESÃOS,

ESCOLAS PUBLICAS E PARTICULARES, ETC.    PARA   DIFUNDIR   A  

PRÁTICA   DA   LEITURA,   DA   ESCRITA   DE   PROSA   E VERSO, E   DA

LITERATURA EM GERAL .

 

PROMETEMOS   TRABALHAR   COM   AFINCO   PARA   A   DIFUSÃO   DE

NOSSA   ACADEMIA   EM   TODO   O   ESTADO   DE   PERNAMBUCO,   E    

TERRITORIO   NACIONAL,   PARTICIPAR     DOS ATOS   ACADÊMICOS  

DE   OUTRAS   ACADEMIAS,   DE   FEIRAS   LITERÁRIAS ,   DE   POESIAS,    

DE   QUAISQUER   MANIFETAÇÕES   CULTURAIS   QUE   VENHAM   A

ACONTECER   NO   NOSSO   ESTADO E NO   BRASIL,   TUDO   DENTRO   DE  

NOSSAS   CONDIÇÕES   IDEAIS   DE SAUDE   E   FINANCEIRA.

 

Passo a palavra ao novo Presidente da ALAOMPE, Sr. José Airton de Santa Cruz;

 

Que seja muito bem vindo o Presidente Airton de Santa Cruz.

Solicito ao Sr. Elinaldo Xavier, ex-presidente da ALAOMPE, que troque de lugar com o Sr.

Airton de Santa Cruz, para darmos prosseguimento à solenidade, já em seu novo formato.

Passo a palavra ao novo Vice Presidente, Sr. Anchieta Antunes.

Solicito ao Sr. Lenilson Xavier que troque de lugar com o Sr. Anchieta Antunes.

Que seja muito bem vindo para o novo cargo o Acadêmico Anchieta Antunes.

Convidamos para fazer parte da nova mesa a:

Assessora Juridica, Paula Yonara Barbosa de Lima; (palavra – 5 minutos);

1ª Secretária: Mariana Helena de Jesus; (momento poético, poema da autora)

Tesoureira: Elaine Maria dos Santos; ( 5 minutos);

Bibliotecaria: Izaura Tatiana de Lima Coelho; (5 minutos)

A palavra está facultada ao Diretor de Cultura, Robeval Lima, (10 minutos) que neste ato

vem representar todos os Diretores.

CORO DE CARUARU, VEM? CONFIRMAR!

Agradecemos a presença de todos, e damos por encerrada solenidade, agradecendo a Deus

por tudo que recebemos e pedindo sua ajuda para levar a cabo uma excelente gestão; sendo

uma organização cultural, respeitamos a religião individual de cada um dos presentes. De

todas maneiras gostaríamos de finalizar este ato, dando-nos as mãos e rezando um Pai

Nosso.

Convidamos a todos os presentes para compartilhar um coquetel que será servido em

seguida. Boa Noite.

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POSSE   NA   ALAG – DIA 06/12/2014

Boa noite senhoras e senhores, sejam todos muito bem vindos a mais uma cerimônia de posse de um novo Acadêmico , Sr. Severino Fernando da Rocha Jr. que nos dá a satisfação de contar com mais um engajado na nobre causa da cultura. Sabemos que o confrade   Fernando Jr. vai nos ajudar a lutar pela causa comum da divulgação das letras e manifestações culturais, em suas diversas variáveis, tais como prosa, verso, pintura, escultura, artesanato, e o salutar cordel de todos os tempos do nosso velho e querido nordeste..

Não faço parte do quadro de Acadêmicos da ALAG, hoje estou convidado a formar esta dileta mesa como Vice-Presidente da ALAOMPE, e Acadêmico da A L B. Encaro as Academias e seus integrantes como uma “UNIDADE PATRIMONIAL DA   CULTURA”; todas as Academias de um modo geral, e as das microrregiões do agreste Pernambucano, em particular, devem   formar um bloco compacto e homogêneo para a defesa de nosso acervo regional de conhecimentos.     Transmito   os cumprimentos do   Presidente da ALAOMPE, Sr. José Airton Santa Cruz, que por motivos de força maior não pode comparecer, e me pediu que o representasse.

Quero dar as boas vindas ao nobre colega Acadêmico, pedir que ajude as crianças de nossa região a conviver estreitamente com as letras, com as diversidades culturais, com as várias manifestações literárias, e, porque não dizer, filosóficas. O bojo cultural de nossa Nação, considerando as particularidades regionais, é, antes de tudo, sagrado e venerável. Devemos conservá-lo na nossa memória, nos DVD’s, em pen-drive, nos “documentos do computador”, em escritos manuais, em folhas soltas, em nossos cadernos de anotações, até mesmo naquele papel grosso, onde antigamente os açougueiros enrolavam nossos pequenos pedaços de carne para o consumo do dia (papel do charque, segundo as palavras do Presidente da ALAG, Agostinho dos Santos). Tudo que emane da manifestação espontânea de cultura como versos, crônicas, contos, cordéis, discursos, protestos e polemicas estudantis, deve ser preservado para a posteridade Assim teremos uma historia para contar para nossos filhos, netos e bisnetos. Um país com historia é um país com vigor, com causa e efeito, um país com anseios e objetividade, com ancestralidade.

Para não me tornar cansativo, novamente dou as boas vindas ao confrade que hoje nos agracia com sua disposição para lutar pelas letras, na nossa cidade e em outras vizinhas, carentes de mentes brilhantes como a do empossado neste momento.

Um grande abraço para todos e muito obrigado pela paciência.

Anchieta Antunes

Gravatá 06/12/2014.

Anchieta Antunes –

Tem gente que sente, eu mastigo. Quando ela vem com muita força eu a transformo em massa de moldagem e faço uma porção de esculturas bizarras. Tenho um almoxarifado somente para as saudades mais contundentes, aquelas que me marcaram mesmo, como o primeiro beijo que dei em minha mulher Dea, na mata que rodeia o aeroporto de Montevideo, “Carrasco”. Hei! Gente! Carrasco é o nome do aeroporto, e não do beijo ou da saudade. Por favor, não confundam.

         Foi um beijo relâmpago, onírico e fugaz, quando a moçoila correu para casa, procurando a segurança do olhar materno. Um beijo trigueiro, roubado pelo gato ladrão, rápido como um felino, sem cheiro nem cor; apenas um roçar de lábios e inserido “na memória gravada a cinzel.”

         Esta saudade, ou o beijo, transformou-se em vida a dois; nossas vidas que hoje desfrutamos juntos. De vez em quando a saudade nos acomete, quando pensamos nos momentos desfrutados em viagens surrealistas, em passeios submarinos, na gruta onde pisamos e esmagamos a cabeça do leviatã, transformando-o em lava vulcânica.

         Saudades há, que não sabemos definir sua origem ou presença. Surgem nos momentos mais inesperados, inusitados, trazendo-nos surpresas de um passado longínquo. Vem surgindo como uma nuvem de areia no deserto da memória; chega, apresenta-se e pergunta: lembra de mim? Estive com você naquele ano de viagens múltiplas, de devaneios e descobrimentos prazenteiros. Como você gostou de pescar no lago das ilusões, resolvi transformar aqueles momentos em saudade para um dia vir visitá-lo quando menos esperasse. Aqui estou e o lago já não é o mesmo, está poluído, cheio de casas ao redor, jogando tudo que não presta em suas águas outrora limpas.

         Tenho saudades dos lagos do sul do Chile quando vi aquele homem pescando salmão para o casal amigo que viria visitá-lo naquele domingo. Em meia hora ele pescou uns 15 peixes de bom tamanho. Quanta fartura, quanta brancura na água e nas escamas dos peixes brilhantes. Tenho saudade do “hotelzinho” de cidade pequena, na beira do lago, com um café da manhã digno dos deuses; do frio matinal acalmando o sol intruso, do vinho que tomamos, sentados no banco da praça, eu e Dea, sozinhos, e toda a cidade à nossa disposição. Na mesma lojinha onde comprei o vinho, também adquiri um “saca-rolhas” ( em espanhol= “saca-corcho”), fomos caminhando com a alegria da vida resolvida, em direção à praça arborizada, porém sem nenhuma folha para farfalhar em nossos ouvidos. O primeiro trago tinha o gosto de tanino, o segundo estava maravilhosamente maravilhoso, um néctar, não dos deuses, mas, um sabor de Anchieta e Dea. Vida pura, sem mistura, sem açúcar, ou qualquer ingerência exterior.

O que comemos no almoço? Advinha! A dona do hotel tinha ido se divertir na beira do lago, pescando o almoço dos hospedes. Comemos salmão; fresquinho como manda o figurino, digo, o cardápio.

        O preço da saudade varia de acordo com a mentalidade do saudoso. Pra mim não tem preço, pode ser um milhão, ou um milhinho, ou seja, uma moeda. Aliás, estou redondamente enganado, porque lembrança de coisas ruins não é saudade, é frustração e raiva. Saudade só existe para o bem bom, para aquelas coisas que nos aconteceram e nos marcaram de maneira positiva. Sinto saudade da brisa, porque do calor quero é distancia.

         No México tomei água de coco verde com pimenta. Neste caso, a saudade está navegando no barco do momento “esdrúxulo” , já que não gosto de pimenta. Dea comeu doce de “tamarindo” picante. Creio que os mexicanos todas as manhãs, antes de sair de casa, tomam uma dose de molho de pimenta, para lubrificar a vida. Na rua vendem fatias de manga com “chile” . Parece mentira, mas é só ir lá e conferir.

         Hoje quero ser hospede da vida, para forjar saudade, esculpir outroras, e delinear reservas autorais. Hoje para comer preciso do melhor da “Bodega de Dona Santa”; vou escolher minha janta: torresmo crocante, macaxeira espapaçada na manteiga de garrafa, carne de sol assada na trempe do fundo do quintal, com carvão de mulungu, quero tapioca de coco, jerimum caboclo cozinhado com casca, batata doce e inhame. Pra sobremesa prefiro “baba de moça” feito com a laminha do coco verde, bastante açúcar cristal, alguns cravos da índia, e uma grande pitada de cheiro no“cangote” da cozinheira. Tudo, claro, acompanhado de um café preto retinto, torrado na lata de tinta, com o fundo furado pra escorrer a ultima gota de seiva.

         Pra estralar a língua de prazer e puro gozo, preciso de uma saliva adoçada com o mel do encantamento, aquele da colméia coberta com a asa do anjo dos sonhos preservados para a eternidade, e, por isto mesmo, vou guardar esse momento no almoxarifado de saudades especiais, para daqui a alguns anos apanhá-la com os dedos enluvados e gozar dela à luz da lua cheia.

Saudade a gente faz como quer, é só ter imaginação e não ter medo do ridículo. Eu mesmo adoro sobrevoar meus dias escanchado no lombo da saudade, entre suas asas, e olhar para baixo como se estivesse escolhendo meu melhor momento…   “para   revivê-lo” .

ALAOMPE

Anchieta Antunes – Copoyright

Gravatá – 30/11/2014.

Anchieta Antunes –

         Quando estou com saudade dela subo na minha caleça e vou procurar por ela. Às vezes ela está escondida bem longe, depois da penúltima curva do destino, conversando distraída com o medidor de estradas. Não está nem aí pra “bem perto”. Dele só quer lonjura, porque “bem perto” é muito conversador e toma todo o tempo que ela tem pra trabalhar, ou seja, para ir para bem distante de tudo, de todos, até mesmo da saudade, de quem é muito amiga e até mesmo comadre. Algumas vezes a saudade arma pra ela e a carrega pra perto do homem que está com saudade da distancia; Sabe! Aqueles homens que gostam de viajar, de conhecer outras ruas, praças e coretos. Teve um vaqueiro com sangue nos olhos que ficou com raiva da distancia, e sem nenhuma cortesia, a levantou pelos cabelos colocou dentro do matulão, montou no seu cavalo e a levou para uma praia bem distante. Lá naquela lonjura, abriu o saco de couro, despejou seu desafeto na areia quente e disse com desafio:_ agora quero ver você ir pra bem distante de mim. Você sabe que eu te amo, mas sempre que me descuido, você escapole e vai pra bem longe de mim! Ora! Por que não me leva, você não sabe que adoro viajar, ir pra bem longe de tudo? Ficar escondido no sovado da madrugada, conversando com as estrelas, perguntando onde fica o esconderijo de Deus?

         Com afeto ou desafeto, quando estou sozinho no mato, me deito na cama de gato, fico olhando pra lua, e quando ela pisca um olho pra mim, querendo me namorar, digo bem baixinho pra ela não escutar: meu amor, você está muito distante, venha mais pra perto e vou te mostrar com quanto paus se faz uma jangada, com quantos milhos se prepara um curau, e onde fica escondida a beira do beijo roubado, aquele beijo que o vento safado, com raiva do meu amor por você, levou nas suas asas pra bem longe de mim. Um dia eu pego ele e trago você de volta pra mim. Vem pra cá, vem!

         Ouvi dizer que a distancia não carrega mala, nem saco, nem pavio, porque não quer se comprometer com ninguém, com nada, nem mesmo com datas. Eita, ente de Deus arrenegado! Tudo que ela vê, pega e leva pra bem distante e deixa por lá vagante , e quem quiser que vá buscar, na casa do bacurau, ou no tronco do pica-pau.

         Também me disseram que a distância só tem compromisso com a solidão, e às vezes se senta triste e sisuda em cima daquela pedra pra pensar na vida do viageiro que um dia ela levou, e não lembra onde deixou, e fez ele abandonar mulher e filho na Lagoa do Mundaú, pescando peixe com chuva, matando lebre com vara, cuspindo poeira e pancada, e levando pra mãe em casa, apenas a calça rasgada. É num momento deste que tenho vontade de gritar:_Distancia, deixe de ser malvada, pegue o homem pelo braço e leve ele pra casa, que Maria ta morrendo de saudade, e é só pele e osso, os olhos esbugalhados e a barriga nas costelas. Ela só pensa nele e me disse que quer morrer bem “pertinho” do cheiro do couro do seu vaqueiro, passar a mão nos seus cabelos rebeldes, duros como espinho de “cardo santo” benzido pelo anjo da cura milagrosa. Ela grita no meio da noite, no claro da lua cheia, com vontade e hombridade>_ Vem homem de Deus, vem pra pertinho de mim, me dá um cheiro e me deixa morrer feliz, pelo menos uma vez na vida, na hora da despedida.

         Maria ainda grita com toda a força amorfa de seus pulmões esburacados:

         _DISTANCIA, se transforme, pelo menos uma vez, em “BEM PERTINHO”, e traga ele pra junto de mim, pra eu lhe dar um último beijinho.

               ADEUS DISTÂNCIA, VAI PRA BEM LONGE DE MIM!!!

ALAOMPE

Anchieta Antunes – Copyright

Gravatá – 1º de dezembro de 2014

POR ANCHIETA ANTUNES

 

         A dor anula sentimentos viageiros, apaga lucidez e temperança; Ela é precedida pelo trauma que desvirtua a cor da carne, da pele, e perverte a vontade. Invade searas sagradas de deidades intrínsecas, suja o templo da pureza de raciocínio, dilacera vontades e coragens.

         Como areia movediça engole tudo, com voracidade inexplicável, transcende o espírito, afoga o desejo, aniquila o caráter. Na subida ou na descida a gangorra do sofrimento derrama lágrimas de desespero, como se a última gota não servisse para saciar a angustia e a rudeza do transtorno.

         A dor é o cravo da cruz, o amparo dos pés tingidos de vermelho; é o brado de fé para o último talho da guilhotina; a certeza do corpo demolido, o sucumbir do orgulho do guerreiro.

         A tipóia é a carruagem do “bardo” que oscila nas curvas dos versos que deambulam sobre pedregulhos de escárnio, conduzindo-o para o calabouço do silêncio imposto pela tortura totalitária.

         O lago à frente borbulha fervura brilhante e visceral, liberando lâminas afiadas que dilaceram como vidro raivoso. A única certeza é o momento presente, cruel e silente, algoz de um lapso intempestivo.

         Passados os dias, ela nos abandona como se nunca tivesse nos visitado, e, diga-se, à nossa revelia; vai-se com o mesmo valor de instantaneidade com que abriu a porta de nossas emoções pueris, intocáveis, santificadas. Chega como um aríete pontudo, desvirginando nossa candura, atropelando o tapete mágico de nossos doces sonhos cândidos e etéreos. Parte para os confins do horizonte e nem mesmo nos deixa de triste lembrança, uma foto do esgar da fisionomia alterada pelo fantasma dos tempos austeros.

         A dor é como uma criança sapeca que aperta o nó da gravata até quase sufocar o incauto transeunte de megalópoles. Como habitante de um mundo para nós invisível, a dor quando parte não deixa rastro para não ser identificada pelos profissionais da saúde, que descobrem, até mesmo, micro partículas abissais.

         A dor é uma sombra em plena noite, dentro da caverna do holocausto; inexorável como a natureza, incolor, solitária, sem compleição física, amorfa, inatingível e odiada por todos os seus hospedeiros. Quem a criou foi o mesmo Criador de nosso corpo perfeito, e ela serve de alerta para os perigos que não enxergamos.

         A dor deambula pelos vales de lagrimas, como um asceta que entoa bruxuleantes cantatas nas auras das pessoas que vagueiam pelas ondas dos ventos tenebrosos. Ela existe como intangível vagar de sombras em desertos inóspitos.

         No corredor da angustia pulsante, com luz ou no escuro, o sôfrego ambulante pode perceber que o seu sepulcro sorri para ele, como um acólito da maldade, debochando de um osso enfermo, de uma torção incúria, de um momento descuidado.

A dor não absolve pecados passados, presentes ou futuros.

         Ela não grita, faz gritar, faz gemer na senda do infortúnio.

 

 

ALAOMPE

Anchieta Antunes – Copyright

Gravatá – 29/11/2014

ANCHIETA ANTUNES

Baluarte fincado
na esquina
da cultura,
na curva do saber,
na crista da onda,
vislumbrando
a aurora das letras,
da palavra falada,
da rima e da métrica,
da poesia nacarada
no leito orvalhado,
na capela das conquistas.

Delasnieve costuma escrever um rosário de vitórias conquistadas sobre pedras afiadas, cortantes, desgastantes; dilacera os pés e a alma que chora, e que persiste, e consegue, inda que seja na última réstia da luz do sol, que chega claudicante para iluminar sua arena de pelejas e contratempos. O brinde é servido com a última gota de suor, aquele que pingou em suas noites insones, buscado solução, viabilidade, exeqüibilidade, sustentabilidade, execução e penhora.
Delasnieve não trilha caminhos fáceis, aplainados; o dom de sua palavra existe para conseguir e construir. A alegria aflora quando a cortina é aberta e começa o espetáculo; neste momento ela ri com todos os poros, com a certeza da conquista, da vontade conseguida na banca derradeira que vende ilusões, no tabuleiro de fim de feira.
*Sua palavra é o verbo criador*
O desejo transformado em realidade patente, latente, contente.
Delasnieve Daspet
É….
ALAOMPE
Anchieta Antunes – Copyright
Gravatá – 15/11/2014.

L I D I Z Homenagem a Lilia Diniz

Um sorriso maroto,
olhar de esguelha
burlando-se da vida –
para a dúvida…
apenas um muxoxo

Postura retilínea
curvilinea, trigueira
derrama versos e rimas
em tablados,
coretos e palcos,
com seu jeito felino
decora CORA,
alinha peças,
diverte platéias

Com lágrimas derramadas
no plano da palmatória
convida a todos
para provarem docinhos
no grande sarau da vida,
com o sal da verve
e alegria incontida.
Diniz Coralina
é “o” nome delas.
ALAOMPE
Anchieta Antunes – Copyright
Gravatá – 8/11/14.

 

InvVocê convive com elas o tempo todo: no seu trabalho, em eventos, na sua família. Pessoas tóxicas são aquelas que exalam algum tipo de sentimento ou característica ruim que pode afetar seu dia a dia.

Como qualquer tipo de toxina, você precisa limitar sua exposição a essas pessoas ou até mesmo cortar laços para se proteger. Segundo o site da revista “Inc.”, esses sujeitos infelizmente não vêm com avisos ou alertas. Por isso, aqui vão alguns sinais para identificar esses tipos:

1. Pessoas arrogantes
Há uma grande diferença entre confiança e arrogância. Confiança inspira; arrogância intimida. Pessoas arrogantes sempre sabem mais e se sentem superiores aos outros. Elas nunca vão celebrar sua confiança, porque isso interfere na arrogância delas.

2. Pessoas vítimas
Uma das piores pessoas que você pode encontrar na sua vida são as que sempre se fazem de vítimas. Elas olham para seus próprios erros e sempre encontram alguém para culpar. Elas nunca se responsabilizam pelas vidas delas.

3. Pessoas controladoras
Elas sabem tudo e a melhor forma de fazer qualquer coisa, mas no fundo são pessoas extremamente inseguras. O problema é que enquanto você estiver rodeada por elas, você nunca terá chance de dar sua opinião ou ser escutado.

4. Pessoas invejosas
Elas nunca estão felizes com o que têm e são incapazes de ficarem felizes pelas boas coisas que acontecem com você. Elas acreditam que se alguma coisa benéfica tem que acontecer, deve ser com elas.

5. Pessoas mentirosas
Mentirosos crônicos são perigosos porque você nunca saberá no que acreditar. Você não poderá contar com as promessas deles ou suas palavras. Eles mentirão para você sobre outras pessoas e sobre outras pessoas para você.

6. Pessoas negativas
Você provavelmente deve conhecer alguém que vive irritado, ressentido, desconfiado de tudo. Negatividade destrói relacionamentos e passar tempo com pessoas assim dá a sensação de que estão sugando sua vida.

7. Pessoas gananciosas
Muito de nossa cultura nos guia para querer mais, alcançar mais, faturar mais. Até certo ponto isso é bom, mas se torna tóxico quando alguém quer tudo – o que é seu ou dos outros –, e o processo de conquistar essas coisas se torna mais importante do que até mesmo viver.

8. Pessoas que julgam
Há uma grande diferença entre julgar com base em dados objetivos e julgar apenas para criticar. Pessoas que julgam demais são rápidas para tirar conclusões que nem sempre se provam corretas. Elas são péssimas ouvintes e comunicadoras.

9.  Pessoas fofoqueiras
Elas conversam sobre os outros sem distinguir o que é especulação e realidade. Isso é uma forma de elevá-las acima de suas inseguranças. Poucas coisas são mais destrutivas do que fofocas.

10. Pessoas sem caráter
Se uma pessoa não tem integridade ou honestidade –  trair, manipular, fofocar fazem parte de suas atitudes diárias –, haverá poucas coisas que ela não faça para conseguir o que quer.

Fonte: http://revistapegn.globo.com/Dia-a-dia/noticia/2014/10/10-tipos-de-pessoas-toxicas-que-voce-deve-evitar-na-sua-vida.html

XXII CONGRESSO BRASILEIRO DE POESIA.

BENTO GONÇALVES – RS.
DE 6 A 11 DE OUTUBRO DE 2014.
HOTEL VINOCAP
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Eu estava no escuro, com a expectativa pipocando nos nervos.
ERA A MINHA PRIMEIRA VEZ…
TINHA MEUS RECEIOS, OU SERIA MEDO MESMO?
Ela poderia aparecer a qualquer momento, era só dobrar a esquina e dar de cara com a surpresa desconhecida, ainda que esperada. Foram momentos de angustia e pré-gozo. Ah! Meu Deus como será? Saberei me comportar à altura do esperado por todos? Que venha logo de uma vez, que apareça em carne e osso, preciso conhecer o sabor da volúpia da palavra sussurrada ao pé do meu ouvido, sibilando cada letra.
EIS QUE ELA CHEGA COM TODA SUA GRAÇA SINUOSA…
Falava com as mãos, com os olhos, com todo o corpo em contorção, era eloqüente e invasiva, atrevida e até mesmo um pouco descontrolada em seus movimentos ondulantes.
A POESIA CHEGOU PARA DOMINAR…
Os poetas não passavam de veículos das imagens, das rimas, das mensagens, (marionetes) transportados à quintessência do prazer da palavra falada, da declamação, da força poética, do turbilhão de idéias arrumadas magistralmente.
Eu estava assistindo à abertura do XXII Congresso Brasileiro de Poesia, em Bento Gonçalves. Estava estático, abalado com tanta demonstração de liberalidade, de espontaneidade, de “estado poético”. Inibição! O que é isto?
Para mim que nunca havia participado de um evento tão brilhante de pura literatura, toda aquela movimentação pareceu-me um
“ADMIRAVEL MUNDO NOVO” *(Aldous Huxley)
Com os olhos esbugalhados procurava entender e gravar tudo o que via e ouvia. Uma cascata de novas informações deixava-me extasiado e ao mesmo tempo entusiasmado com o alvoroço dos diletantes poetas e poetisas. Tentei absorver uma enxurrada de palavras novas, ou pelo menos, colocadas em situações desconhecidas para mim: “licença poética”. Alguma coisa ficou registrada nos meus parcos neurônios, outras ficaram deambulando nas vias da cidade serra.
De manhã cedo, címbalos sonoros e prudentes visitavam nossos leitos para a chamada geral do café matinal. Eu me levantava com os olhos cheios de sono e só conseguia acordar embaixo do chuveiro, após o choque térmico. Vestia-me depressa e descia para ouvir os primeiros chilreios ritmados. Com a boca mastigava os alimentos, (por sinal um excelente café matutino), e com os ouvidos deleitava-me com os estribilhos recitados; um bálsamo para qualquer espírito em êxtase.
Na porta do hotel olhava para cima, para baixo e percebia o regato de letras danadinhas libertas, e independentes, descendo em louca corrida, ladeira abaixo, com lúdico alvoroço, para se encontrarem no banco da praça lá embaixo, em frente à Prefeitura. A postos já havia um declamador, apenas esperando aquela tempestade de letras agruparem-se, formando palavras, versos, e, finalmente, mais uma poesia sendo exaltada a plenos pulmões em praça publica. O ritmo cadenciado da poesia bem proposta, passeia na cabeça de cada um, formando uma canção particular e romântica, singular e pujante, furibunda e flamejante, às vezes vestida de vermelho. O meu amigo poeta Renato Gusmão, a quem saúdo com saudade, “pegou um Ita no norte” e foi ver o peso da poesia nas bandas frias do Rio Grande do Sul, em Bento bendita e escanchada no cimo da serra, com suas brumas de nuvens brancas. Com sua voz quente do norte e o vigor de seus poemas, ele desfilou rimas e ritmos, e até mesmo ritos na declamação de seu gênero literário.
Mais um dia estava começando, mais uma jornada literária, mais versos, mais sonoridade, mais exaltação artística na rua, no palco, nas escolas, nos presídios, no hotel, no auditório, na alma de cada um. Todos participaram, todos declamaram de memória ou lendo, seus poemas escritos quem sabe a que hora da noite solitária no recanto de cada escrevinhador. A inspiração não marca hora para nos visitar, vem quando quer, e vai entrando sem pedir licença, na nossa cabeça como se fosse a amante despudorada, manhosa e mandona, como se estivesse segura de ser a esteira de nosso sucesso; e parece que é mesmo.
Vi-me envolvido numa espiral de cordões de seda regados a fluidos essenciais e inspiradores; ouvi as cordas do violão plangente refutando duvidas e tristezas, ouvi a pancada do pandeiro cadenciado nas mãos de um profissional competente, deleitei-me com a voz robusta da seresteira em arrebatamento romântico e melífluo, ri com todo meu corpo quando desfrutei da interpretação da jovem atriz imitando nordestinos em desabalada carreira pelos sertões da seca perversa. A arte pura, sem mistura e sem prazo de validade desfilando no meu cristalino, enchia meu espírito de leveza, de candidez e felicidade, transbordando meus limites corpóreos.
Acalentei os versos de Claudia Gonçalves, a candura de Marisa Cajado, o atropelamento de Edmilson Santini, a arte pura em forma de versos de Artur Gomes e José Salgado Maranhão; o malabarismo gestual de Sady Bianchi, as águas mornas do Amazonas de Fernando Pessoa, aquele de Belém do Pará, não o lusitano saudoso. Cataguases foi lembrada e reverenciada pelo augusto nome do poeta Ronaldo Werneck. Talentoso e simples como uma folha verde, romântico e sensível quanto a seiva da mesma folha verde. Um ilustre SENHOR, um imponente POETA.
Arrepiei-me com o trabalho incansável de Ademir Bacca, que não parava um minuto, que organizava, que providenciava, que resolvia, que dispensava e convocava, que não deixou nada ao acaso. Uma coordenação perfeita, irrefutável, brilhante e digna de meus maiores encômios.
“PERFEIÇÃO BACCA”
Marca registrada, copyright, direitos reservados, inimitável, intraduzível, afinal de contas estamos falando da PERFEIÇÃO BACCA. Nada menos, nada mais.
Arrepiei meus cabelos brancos porque vi-me circunscrito no circulo do amor tangível, preso nas tenazes de alvoroçadas paixões incandescentes, constantes e mutantes, rápidas, vorazes e passageiras; alegres, juvenis, risonhas e felizes. Apaixonei-me varias vezes por dia, amei todas as poetisas, todos os poemas, todos os poetas; desfrutei de cada vírgula, envolvi-me nas curvas das interrogações, saltei o ponto e vírgula, e parei nos dois pontos. Não me deixei escravizar pelos “parêntesis”, nem coloquei meus pés na reticência, não duvidei da interjeição. Amei todos muitas vezes por dia, consciente de que
“O AMOR POÉTICO É VERTICAL”.
Chegou o dia da despedida… o momento dos adeuses, dos abraços e de algumas lagrimas escorrendo face abaixo. Não gosto de dizer “adeus”, não gosto de olhar para trás e ver o momento passado, a esquina dobrada, o passo caminhado, as nuvens caídas, não gosto do sopro da saudade no meu cogote. Não gosto… parti e aqui estou escrevendo meus devaneios e saudades… não gosto.
Bento Gonçalves que nos espere em 2015.
Será que estarei menos observador e mais participativo? O tempo dirá!

ALAOMPE
Anchieta Antunes – “copyright”
Gravatá – 24/10/2014.

ANCHIETA ANTUNES

De mãos dadas subimos a colina sem perder de vista a distancia que nos separa do passado, dos passos que faltam para atingir o futuro. De mãos dadas caminhamos sem a pressa do momento seguinte que virá à nossa revelia, que neste momento é futuro e no seguinte é memória, sem conceito ou rebeldia. No frenesi da vida palpitante escolhi a alegria para dizer o que sinto.
Gosto de sentir-me com meu eterno amor, ereto nas asas da liberdade flutuando de mãos dadas com desvelo e com ardor. Na subida alegre e viva, pingos de chuva revelam nossas almas em festejos, e purificam nossos espíritos, banham nossos corações, eternos juvenis, deitando calor e carinho, cavando com todo cuidado nosso ultimo ninho.
De mãos dadas montamos no lombo da vida para cavalgar nossos destinos, percorrendo sendas desconhecidas, esquivando-nos de galhos intempestivos que nos afrontam como se verdades fossem, como se fizessem parte da nossa jornada em direção ao nosso paraíso etéreo, após nosso ultimo adeus.
De mãos dadas vamos flamejantes desafiando obstáculos ocultos nas sombras covardes do futuro obscuro e indevassável. Apenas nos provimos de coragem, destemor, e espírito de aventuras laicas e lúbricas. A vida foi feita para viver, não para interrogar! Na vida não cabe duvidas, apenas comporta cada momento pulsante de paixão.
No azul do arco-íris pintamos nossas emoções para ficarem da mesma cor de nossos sonhos, que um dia serão desejos, e no seguinte vida experimental. Precisamos virar cada pagina para descobrir o momento de futuro imediato, como se nosso fôlego dependesse da certeza dramática do conhecimento de um porvir duvidoso. Vã filosofia, pobres esperanças esgarçadas pelos ventos do leste.

ALAOMPE
Anchieta Antunes – Copyright
Gravatá – 30/09/2014.

PASSEIO A “ GARANHUNS”
Terra dos lobos “guarás” e dos pássaros “anuns”.

Foi no dia 20 de setembro, e saímos do ponto de encontro “Rei das Coxinhas”, em Gravatá. A frota de veículos (um ônibus e uma van) estava chegando de Escada, Município vizinho. E chegaram na hora aprazada, apenas com 15 minutos escorridos e caídos em buracos na pista; Quando a causa é nobre, a tolerância é apenas um gesto de amizade. Embarcamos, começamos a viagem, e só paramos para abastecer o bólido brilhante. Próxima parada: Garanhuns;

“A TERRA DAS FLORES, DAS COLINAS SECULARES, E DOS VALES COLORIDOS”

Durante a viagem houve sorteio de prendas, na base de papel com nomes dos participantes, contudo há quem diga que houve “cambalacho”. Eu não acredito porque sei que todos os presentes são de reputação ilibada, honestidade à toda prova, salvo prova em contrario. Cantaram todas as musicas que eu ouvia na minha infância (a media de idade deve ter chegado a 90 anos); resta dizer que todAs cantavam de mal a pior, com exceção de um rapaz, que não conhecia, e que tinha voz de soprano.
Nosso guia, Sr. Dr. Igor, que não devia ter seguido a carreira jurídica, mas sim a de “HISTORIADO EMÉRITO E CONSAGRADO”, nos presenteou com todas as informações havidas e por haver sobre a Cidade de Garanhuns, sua cidade, sua pátria, seu Olimpo; a cidade das “SETE COLINAS” . Garanhuns só difere da Roma das Sete Colinas, “PORQUE É MUITO MAIS BONITA”. Roma não tem tantas flores quanto tem o nosso jardim do agreste; o que Roma tem muito é fuligem nas paredes dos prédios. É fato que atrai milhões de turistas por causa do Moises de Michelangelo, “DE LA FONTANA DE TREVI” e um “espaguete” matador, insuperável, divino e insubstituível. Só isto Igor, não fique triste. Garanhuns não atrai tantos turistas porque fica depois de “GRAVATÁ” , a cidade da gastronomia e da libação noturna. Sinto muito, meu prezado Igor… Se fosse possível juntar as duas cidades, teríamos “GRAVANHUNS”.
A canseira, digo as visitações a lugares históricos e bucólicos, começaram logo que chegamos ao “jardim das alturas”, cidade das flores. Fomos ao Parque dos Eucaliptos, que, certamente, está cheio de eucaliptos e o cheiro da arvore no ar do espaço. Diferentemente do PARQUE DE LOS ARRAYANES, que fica na Cordilheira dos Andes, na Argentina, e não tem nenhum cheiro peculiar. O nosso, sem dúvida, é mais inebriante.
Depois nós fomos para uma Igreja famosa, de Nossa Senhora, em seguida para um Mosteiro, o que não significa que estávamos fazendo um roteiro santificado, nem que nenhum de nós quisesse ser canonizado. Vimos a Igreja Redonda ( não sei se redonda é adjetivo ou substantivo); fomos ao Cruzeiro, na 6ª COLINA, A “COLINA DO MAGANO”, a uma altitude de 1.030 metros. De lá temos uma impressionante vista bucólica e panorâmica. Igor e os jovens subiram num caramanchão de pedra por uma escada que fica por trás da construção. Eu cheguei perto, olhei para dentro da construção, examinei, prestei atenção, e não vi nenhuma escada, e logo pensei: como estamos na via sacra de Garanhuns, este povo que está naquelas alturas com o “Beato Igor” deve ter “santamente levitado” com toda a leveza das asas dos anjos agrestinos. A Pátria de Simoa está preservada pela eternidade.
A esta altura dos acontecimentos eu já estava por jogar a toalha; o cansaço me dominou, me derrotou, me jogou na lona forrada de pétalas. Queria um hotel, uma cama, um banho, um repouso. Chegamos ao hotel….. com uma hora de atraso. Coloquei minha mão em cima do meu coração e percebi que ele continuava pulsando com toda sua valentia de infartado renitente. Vim e venci! Mentira. Vim e caí na cama, esfalfado, mutilado, debilitado. Tomei água e um banho de, pelo menos, 15 minutos, o que me revigorou. Saí do banho novo em folha. Quase! Não leve em conta as bazofias de um septuagenário.
Fomos todos de ótimo humor para a Câmara dos Vereadores para assistir a uma palestra. Ouvimos a abertura com a locução de um radialista local; também escutamos declamações de poesias de nossos poetas nordestinos, ouvimos cordel, e um resumo “bastante extenso” da historia da cidade. Vou falar a verdade: fiquei chocado com tanta carnificina. Pela manhã Igor nos disse que o Padre Osano matou o Bispo com um tiro, depois o padre foi morto a paulada, e de noite o Professor nos contou da matança dos coronéis pelos jagunços; juro que estava com medo de guardar no meu velho coração, uma bala perdida. Sai da Câmera, digo, da Câmara todo salpicado de vermelho. Minha camisa branca não iria mais me abrigar em outros eventos, mesmo que sem mortes.
Já ouviu falar em humor negro? Claro, todos nós já ouvimos ou participamos de algum evento de humor negro. O de Garanhuns: depois da carnificina dos coronéis pelos jagunços : fomos para um lindo restaurante jantar e eu pedi carne mal passada. Antes, porém, tive o cuidado de tomar um uísque duplo. Se o boi gritou quando eu cortei o filé, não escutei nada! Um viva para os escoceses.
Depois da comida, hotel, cama e sono. O meu foi interrompido às quatro da madruga, por um grito do meu companheiro de quarto, Dr. Gibson: _mata o safado, mata o jagunço”. Coitado do meu amigo, tinha ficado impressionado mesmo!
No dia seguinte fomos comprar chocolate em uma fabrica dos mesmos. Eu comprei R$ 28,00, Suely gastou R$ 33,00 e nossa amiga exagerada Ivoneide “torrou” R$ 50,00. No outro dia telefonou só para dizer que estava tremendamente arrependida com a compra. O chocolate dela chegou em casa todo derretido. Que baixinha das mãos quentes! Valha-me Deus! ‘
Chegamos em casa… pois é, toda ida tem volta. Somente a ultima é que não tem o bilhete de volta. Tomei um banho, vesti o pijama e dormi por 13 horas seguidas, sem levantar nem pra fazer xixi; meu recorde.
Que venham outras viagens, outros passeios mesmo com carnificina e via crucis. Estarei sempre disposto a dar minha contribuição de cansaço e santidade. Afinal de contas não é todo dia que se ganha o reino dos céus.
A viagem foi muito divertida e nunca ri tanto quanto nestes dois dias. Foi sensacional, maravilhosa e inesquecível. Tudo graças ao empenho da Presidente da Academia de Letras de Escada, Teresinha Melo; a mulher que sempre tem um sorriso nos lábios, um coração imenso e uma aura divina e brilhante.
Agradeço a oportunidade a todos os companheiros, àqueles que se lembraram de mim, aos confrades e confreiras e até mesmo ao magnífico motorista do ônibus.

ALAOMPE
Anchieta Antunes – Copyright.
Gravatá, 22/09/2014.

ANCHIETA ANTUNES

Recém casados, estavam morando na casa que havia sido dos pais de Lucinha. Vizinhança antiga, todos amigos, ou, no mínimo, conhecidos de longas datas. Um bairro de classe média com a vida resolvida. Em frente à casa em estilo colonial, uma grande praça arborizada. Não era uma praça nos moldes conhecidos como tal; era um terreno privado que a Prefeitura desapropriou e esqueceu que ela existia, ficando, pois, para o bairro em caráter eterno. Muitas árvores sombreavam o terreno, a maioria frutíferas, alguns bancos de madeira salpicados pelo perímetro retangular. Bom para caminhar, e sem duvida para descansar quando se reuniam à noite em suas cadeiras formando rodas de bate papo.
Cada família cuidando de seus afazeres, trabalhando em suas profissões, regando cada dia com o suor que escorre pelo rosto riscado de responsabilidade; é apenas a vida: chegamos, percorremos, partimos. Fica, ás vezes, uma saudade que o tempo corroe e depois passa um verniz de esquecimento. Tudo resolvido, vamos esperar os próximos…
Assim viviam Lucinha e Mario como milhões de outros casais. Os filhos vieram, como é natural em casais saudáveis. Nasceram, cresceram, estudaram, casaram e tiveram outros filhos. Alguns traços indesejáveis começaram a aparecer e marcar os rostos que um dia foram bem lisinhos e brilhantes. Ruga é a visita que chega para todos que passam dos 60 anos. É aquele tipo de visita que chega e se instala como se fosse a dona da casa. Será que não é? E o mais desagradável dessa visitante é que ela costuma chamar suas amigas para a mesma pousada. A cada ano chegam novas moradoras eternas, até que um dia o rosto da pessoa parece um mapa físico da vida, das atribulações, das alegrias e desesperos. São os anos que aportam sulcando o rosto e forjando o caráter.
O casal gosta de lembrar os tempos em que eram sós, não tinham filhos, e, em conseqüência, menos preocupações. Deitavam-se na rede da varanda para balançar, falar do dia de cada um, beijarem-se, e amarem-se. Nada os impedia de desfrutarem de total liberdade de movimentos, de aconchegos, de dengos e de amor. E assim, rapidamente passaram-se os primeiros dez anos de casamento. Não que os filhos tenham trazido arrependimentos, de maneira nenhuma, eles adoravam os filhos, e dedicaram toda a vida para cuidar dos herdeiros. Com a família completa, restava viver a felicidade completa, e assim o fizeram.
Quando, em alguns finais de semana, os netos chegavam e gritavam: vovó, vovó, Lucinha se derretia toda, de amor, de prazer, de felicidade. Ela sabia estar vivendo o momento da sobremesa da idade, com palavras doces, com abraços com sabor de sorvete de chocolate, com beijos que mais pareciam pudim de leite. O sarau da vida estava servido, só restava degustá-lo com prazer e sem culpa. Lucinha engordou alguns quilos de satisfação. Pneus na cintura? Melhor! Se cair, rola mais fácil. A vaidade a havia abandonado quando ela fez a curva dos cinquenta, e dizia: _não preciso mais deste adorno supérfluo, já te usei por muito tempo, já desfrutei de elegantes momentos em salões brilhando de galanteios, de saias rodopiando ao som da orquestra que alegrava os corações.
Lucinha passou alguns anos de sua vida pousando para fotos que eram apresentadas em Galerias de Arte. Faturou muito dinheiro e muitos rapapés. Seus anos de brilhantismo estavam guardados em álbuns de fotos, que ela não cansava de olhar e mostrar para os netos. Lucinha era feliz! A família era feliz! Os netos diziam:_minha avó é linda! E ela rebatia:_era, meus amores, era… Assim passaram-se os dias, os anos e finalmente a velhice bateu à porta com vontade de não mais sair à procura de outrem. A idade nunca chega para fazer uma visita e ir embora depois do cafezinho com brigadeiros. Não! Ela chega para se instalar, para se deitar no divã do cansaço corporal, do incomodo na coluna, do ombro dolorido. Antes de a idade fazer-se presente, as mazelas adentram o ambiente físico e dominam os sentidos; os cartões de visita são a artrose, a artrite, o lumbago, câimbra na panturrilha e a vista curta.
_Mario, você pode trazer um copo com água pra mim?
_Claro, meu amor! Gelada ou natural? Natural né? Você não pode gripar agora!
_Como você quiser, você é que manda.
Assim os dias iam passando na modorra do calor ou na umidade do inverno, até que um dia, quando Mario entrou em casa, no cair da noite, sentiu o cheiro de ferro queimado e correu pra cozinha. De longe avistou uma chaleira cor de brasa.
_Lucinha, você colocou água pra ferver?
_Eu não, daqui não arredei pé desde o almoço.
Foi o primeiro sintoma a ser detectado pelo marido zeloso. Ficou de orelha em pé e cuidou logo de conseguir trabalhar somente pelas manhãs; as tardes seriam dedicadas à companheira de tantos anos.
Um fogo aceso é o primeiro flash de uma sequência de acontecimentos desastrosos. Ele sabia que precisava levar a esposa ao medico, mas sempre adiava com medo do diagnóstico, que acreditava já saber.
Depois de uma sequência de pequenos acidentes começaram a acontecer as falhas de memória. Primeiro uma data importante, depois o dia de hoje, em seguida o nome da empregada de tantos anos de dedicação laboriosa. A avalanche vinha rolando com uma rapidez insuspeita, a cada dia um novo sintoma e por ultimo as mãos tremendo sem motivo nenhum aparente. Quando Mario percebeu, o mal estava instalado e ele teve que se aposentar com urgência. Iria dedicar-se em tempo integral aos cuidados da esposa, da amiga, companheira, mãe de seus filhos, sua amante fiel e dedicada, seu mundo, sua janela para o jardim florido da vida. Agora eram Mario e Lucinha.
Mario levantava-se bem cedo para preparar o banho de Lucinha naquela imensa banheira que ele conseguira num antiquário. Água morna, sais minerais e bastante espuma com fragrância de lírios. Ela adorava aquele banho, com Mario molhando sua cabeça com uma jarrinha de porcelana; ela às vezes se engasgava, mas logo passava, com duas ou três tosses provocadas. Esse banho durava mais de uma hora, com Lucinha brincando com a água, com um baldezinho, com um boneco de borracha; uma criança em corpo de mulher. Mario, delicadamente passava uma esponja de cetim pelo seu corpo, como se estivesse espanando uma poeira de estrelas.
Aqueles movimentos dentro da banheira eram um ritual sagrado, dedicado à saúde mental de Lucinha; ela precisava, ele acudia. Quando ele percebia que ela pendia para um sono profundo, retirava-a delicadamente da água, envolvia num roupão felpudo e a secava com todo o cuidado para não machucá-la. Pendurava o roupão no cabide e com ela nos braços ia até a cama, onde colocava uma camisola, não sem antes banhá-la com talco e lavandas. Rapidamente trazia uma bandeja com o café da manhã. Frutas e sucos, um pão bem macio com geléia de maçã. Mario sentia um prazer arrebatador em cuidar de sua amada, e dizia:_Meu amor, você é a minha vida, meu sopro de felicidade, sem você não tenho nenhum interesse em viver.
Ele mesmo havia cortado o cabelo de Lucinha, à “chanel” para não enroscar-se no pescoço, para não incomodá-la. Ele sempre a via linda e charmosa; continuava apaixonado por Lucinha. Naquele momento o objetivo de sua vida era “integral dedicação à esposa, à sua Lucinha querida, a mãe de seus filhos”; para isto ele vivia.
O mal avançava com voracidade e a cada dia notava-se uma debilidade extravagante. Lucinha não conseguia mais segurar os talheres para comer e Mario alimentava seu alento de vida com carinho e dedicação. Quando nasceu o primeiro filho, Lucinha havia ganhado um jogo de talher de prata para o bebê. Talheres pequenos para uma criancinha recém nascida, com desenhos delicados e curvas graciosas. Era a colherzinha que Mario usava para levar até os finos lábios de Lucia o alimento pastoso. Colocava um guardanapo bem grande ao redor do pescoço e com toda a paciência do mundo ia ministrando pequenas porções de alimento, como se estivesse alimentando um infante.
Lucinha definhava dia a dia, pois praticamente não comia, não conseguia engolir direito a comida que o marido dava. Terminado aquele arremedo de refeição, Mario a levava nos braços até a varanda e delicadamente a deitava naquela rede onde outrora eles fizeram amor nas noites de verão. Doces recordações envolviam o coração do homem que cuidava da esposa enferma. Lembranças de uns tempos que não voltam mais…
A roda viva da vida roncava nos ouvidos de Lucinha como que para lembrá-la de que estava ali à espreita, pronta para dar o ultimo bote. A roda estava emperrada e queria ir embora para bem distante para descansar da luz do sol, da brisa da noite, das noites insones cuidando dos filhos, dos momentos de pura luxuria com o marido, das viagens alucinantes que fizera, dos mares que navegou, dos parques em que brincou, dos brindes que sorveu com alegria e risos delirantes. A vida estava cansada de viver e desejava o repouso eterno.
Mario adivinhava a proximidade do fim de sua querida mulher. Ele sabia que Lucinha ia perder aquela ultima batalha para o mal de Alzheimer. Não havia rota de fuga, nada de escapatória, não contava com o beneplácito da clemência. Deus estava por bater o martelo anunciando a sentença final, a origem de tudo, a morte. Mario não queria desistir, não jogaria a toalha, lutaria até o ultimo instante, mesmo sabendo que estava vencido pelo tempo, pelo destino.
Naquela manhã, depois do banho de espumas, quando ele a vestia com a camisola, sentiu um arrepio, um vento frio que fustigava o quarto, rodopiando como uma espiral, silvando o último silvo, varrendo a ultima poeira do solo sagrado do quarto de Lucinha. Mario chorou a primeira lagrima, benzeu-se como para livrá-la do mal que a rondava funesto.
Mario desistiu de vestir a camisola e correu para o baú ao lado da cama; abriu-o com sofreguidão, e com o coração tumultuado retirou às pressas, todas as peças de roupas que abarrotavam a arca, até que encontrou o que buscava.
Vestiu-a com todo o esmero, fez um penteado alto e colocou uma coroa de narcisos. Colocou um pouco de maquiagem para emprestar cor ao rosto descarnado e a sentou em sua poltrona preferida. Ela estava linda com seu vestido branco de noiva, com cauda rendada e fios dourados. Ele a imaginou uma santa moribunda prestes a se casar com Deus. Ficou aos seus pés como que a adorando, prestando sua ultima homenagem, até que percebeu que ela queria dizer-lhe algo. Aproximou o ouvido de sua boca e pareceu escutar ela dizer:
_B… bei… beijo… meu amor
Mario aproximou seus lábios dos dela, aquele fino traço carmesim que um dia brilhou nos salões, e, quase sem tocar para não macular sua santa esposa, ele a beijou com toda a
T E R N U R A

de que era capaz, como se apenas estivesse soprando seu derradeiro sopro de paixão sobre a mulher que amou por toda sua vida.
Lucinha partiu nas asas dos anjos, Mario ficou esperando sua viagem de reencontro.

ALAOMPE
Anchieta Antunes – Copiryght
Gravatá – 10/09/2014.

 

O E N C O N T R O II – ACADEMIAS.

Foi no dia 23 de agosto de 2014. Um encontro ímpar. Claro! Se fosse no dia 24 seria um encontro par. Mas isto não tira o brilho do I ENCONTRO DE ACADEMIAS DE LETRAS E ARTES DAS MICRORREGIÕES DE PERNAMBUCO na cidade de Escada-PE.
Vou começar do começo. Moramos em Gravatá, eu e Dea. Ah! Gibson também vive na mesma cidade serrana. Marcos e Ivoneide é que habitam pelas bandas do Recife. Que horror! Coitados, entraram em um engarrafamento e aí estiveram por mais de três horas. Estava acontecendo uma greve dos motoristas e cobradores de ônibus. Dois milhões de pessoas sem ter como sair de casa, ou como voltar pra ela
Eram quase dez da noite quando conseguiram chegar ao nosso paraíso. Dea havia preparado um pastelão de presunto e queijo e temperos, para esperá-los, e ficamos aguardando. Antes eles foram à residência de nossa querida Madalena Medeiros entregar um livro, isto, salvo erro, engano ou omissão.
Chegaram em casa e eu já bocejava fazia um tempão, mas amigo, é amigo, temos que esperar. Valeu à pena esperar, pois Ivoneide nos trouxe um pastelão melhor que o de Dea; refestelei-me. Que delicia!!! Era de frango desfiado. Ainda estou com água na boca. Conversamos um pouco e fomos dormir: isto sim, cada qual em sua casa. Marcamos nos encontrar às 5:45 da manhã seguinte. Passamos na casa de Gibson que ia conosco, ele embarcou e deixou o Pastor tomando conta da casa; uma segurança impar, também.
A estrada para Escada, embora asfaltada, está terrivelmente esburacada, além de ter muitas curvas e ladeiras. Conseguimos chegar, e entrei na rua errada para ir ao nosso encontro cultural. O primeiro encontro desta magnitude a ser realizado no Estado. Uma apoteose, um congraçamento de escritores, poetas e artistas plásticos de muitos Municípios de Pernambuco.
Primeiro fomos deixar nossa bagagem na “POUSADA DO TIO CARLOS”, um baiano desgarrado de suas origens; bonachão e conversador, que nos deu todas as dicas da cidade de Escada. Uma cidade com muitas ladeiras, curvas e pequenas pontes, uma salada de cruzamentos, e, milagrosamente, sem acidentes de trânsito.
Caminhando pelos corredores da pousada encontrei um pequeno letreiro que dizia:”PROIBIDO TRANSAR SEM CAMISA”. Fiquei curioso e ao mesmo tempo indignado, pois, ninguém tem que me dizer como transar, se com, ou sem camisa. Há que lembrar que vivemos num país tropical, ora bolas! Limpei os óculos na fralda da camisa, aproximei-me do letreiro e novamente li:”proibido transitar sem camisa”. O susto deu lugar à vergonha de ter pensado mal do baiano.
Curiosidades: quando chegamos à pousada a mocinha que nos recebeu foi logo dizendo:_ coloquei vocês no primeiro andar, para não terem de subir escada.
Até hoje estou tentando entender a lógica de Escada, sem escada no primeiro andar. Uma incógnita para os Acadêmicos de Escada decifrar.
Finalmente chegamos à FAESC, Faculdade de Escada, simples assim! Simples para destrinchar a sigla, porque para chegar à FAESC precisamos usar o GPS do carro. Curvas e ladeiras, subindo e descendo; um emaranhado de ruas, becos e avenidas, umas cruzando com as outras. Provavelmente o cara que fez o layout da cidade, estava precisando, urgentemente, de um esconderijo indevassável, daqueles dignos de “Tesouro Perdido”.
Fomos muito bem recebidos pelos organizadores do encontro; fomos levados a uma sala para o café da manhã, por sinal um lauto café; bolos, pães, torradinhas, queijos, salames, presuntos, sucos, carne e outros. Tudo prescrito nas tabelas de nutricionistas como “sumamente engordativo”. Quando estamos em reuniões de cultura, de poetas, escritores e artistas, quem se importa com engordar ou emagrecer? Comemos de tudo, e muito.
Uma pequena amostra de quadros e esculturas nos foi mostrada como estimulo aos artistas, e, quem sabe, algumas vendas oportunas! Em seguida fomos para o auditório para o inicio da jornada cultural. A Presidente da ALAE, Terezinha Melo abriu os trabalhos e nos desejou as boas vindas. Iniciaram-se os trabalhos e a primeira mesa foi formada com o tema: ”A LITERATURA EM SUA DIVERSIDADE LINGUISTICA”. Ao todo foram formadas cinco (5) mesas para tratar de temas diferentes, o que nos tomou todo o dia. Cada assunto mais absorvente que o anterior, discussões ardentes desafiavam a platéia a participar, senão com apartes, pelo menos com total atenção. Tivemos um dia cheio de cultura, de versos, de cordéis, e, até mesmo prosa, como crônicas e contos. A alma estava lavada, o espírito adejando nas asas da “sapientia”. Um refrigério em forma de palavras, de conhecimentos.
Por volta das 18:00 horas nos informaram de um jantar patrocinado pela Academia em um restaurante, que naquele momento seria aberto somente para nosso congraçamento, às oito da noite. Tivemos tempo para um banho, um repouso, e depois o momento pantagruélico. Quase todos estavam presentes; digo quase todos, porque alguns tiveram que retornar às suas cidades de origem por motivos múltiplos.
Como não podia deixar de ser, tivemos poesias recitadas, cordéis destrinchados, brincadeiras com palavras e a ordem do dia: o próximo encontro dentro de um ano, ou seja, nos dias 22 e 23 de agosto de 2015, na cidade de Pesqueira, alto sertão de Pernambuco. Finalmente o merecido repouso para a volta no domingo. O fato é que comemos bem, dormimos melhor ainda, e enchemos nosso matulão de cultura e diversidades culturais.
Se valeu a pena? Muito mais que isto, voltamos mais ricos em conhecimentos e amizades conquistadas durante o encontro.
Quando chegamos em Gravatá, fui logo deixar Gibson em sua casa guarnecida pelo “pastor alemão”, que de longe balançava o rabo para seu dono e amigo. Marcos e Ivoneide só tiveram tempo de tirar o carro da garagem e partir para sua casa. Estava encerrada a jornada cultural. Um glória, um louvor a Deus.
Agora só nos resta esperar o próximo ano em Pesqueira.

ALAOMPE
Anchieta Antunes – Copyright.
Gravatá – 1º de setembro de 2014.

ANCHIETA ANTUNES

Aconteceu quase que por acaso. Nada foi determinado pela vontade do homem. Pode ter advindo da providencia divina, ou, como dizem, o universo conspirou. O fato é que aconteceu.
Tem aquela historia toda do convite para sermos acadêmicos, com reuniões, posse, festa pós posse e tudo o mais. São mais de trinta membros e nem todos se conhecem. Eu e Dea conhecemos , no máximo, uns seis. Nas reuniões marcadas pela mesa diretora, sempre acontece de faltar a grande maioria; falta de tempo, muito trabalho, viagens inesperadas e outras circunstancias. Por outro lado, o nosso espaço é exíguo, não caberia todos. A Academia é pobre, ainda…
Um belo sábado de inverno, certamente com muita chuva a despencar do céu, um forte vento soprado do leste, encharcava nossos corpos de umidade pegajosa, obstruindo pensamentos elevados, alegres ou dedutivos. Aí vem a surpresa. Soa o telefone:
_Alo! Digo eu…
_Anchieta?
_Sim. Sou eu…
_Estou indo até sua casa para conversarmos um pouco…
_Posso saber com quem estou falando?
_Com Jaílson…
_E quem é Jaílson?
_Seu colega da Academia; também sou acadêmico.
_Ah! Pode vir, será um prazer recebê-lo… Dea, Jaílson está vindo nos visitar.
_E quem é Jaílson?
_Colega nosso da Academia…
_E você o conhece?
_Não lembro de tê-lo conhecido!
_Bom! Vamos recebê-lo e saber do que se trata.
Passados alguns minutos, parou um carro na frente de casa. Concluímos que seria nosso mais novo amigo, pelo menos era o que esperávamos que ele viesse a ser. Prazer para cá, prazer para lá, (tudo falsidade, pois ninguém tem tanto prazer quando mal acaba de conhecer uma ou mais pessoas) e os convidamos a entrar e sentar (os convidamos – porque ele estava acompanhado de uma dama, que depois ficamos sabendo ser sua esposa).
_Anchieta, foi com eles que nos encontramos no restaurante aquele dia, lembra?
_Claro que lembro.
Mentira; não tinha a menor idéia… mas faz parte do jogo de relacionamentos sociais.
_Jaílson, eu vou tomar um uísque, você aceita?
_Só bebo água…
Sempre desconfiei de pessoas que não bebem nada, não fumam, enfim, pessoas desprovidas de vícios. Quaisquer que sejam. Ninguém é tão puro depois de atingir a maior idade, a não ser por enfermidade ou fanatismo religioso. Ele tomou sua água e eu meu uísque. A madame preferiu um guaraná. Dea gosta de um espumante.
Ficamos sabendo que a esposa é enfermeira e Jaílson, artista plástico. Daqueles empolgados e confiantes em seu talento. Mostrou-nos fotos de suas obras, detalhando cada uma delas. Ele pinta quadros… por sinal muito bons, bons não, ótimos, lindos. O homem tem mesmo talento e técnica. Cursou artes plásticas. Curso superior. Foi até o carro e trouxe algumas telas, todas maravilhosas. Foram os quadros mais lindos que eu já vi. Parabéns Jaílson, você é artista mesmo…
Conversa vai, conversa vem, houve um gancho para eu começar a contar a historia da minha vida ligada a Dea. Desde os primórdios. Fico empolgado quando começo a contar nossa historia, principalmente alavancado pelo uísque. Notamos que os dois estavam interessados. Faziam muitas perguntas. Dea tomou embalo e partiu para os detalhes. Eu conto por cima, não tenho memória para minúcias.
Uma hora depois, já estavam convidados para almoçar e o relato ainda estava em pauta. Entre uma garfada e outra terminamos nossa historia – com detalhes, como já disse.
Terminado o almoço fui dormir. É o que faço sempre, principalmente quanto tomo uns uísques… todos que me conhecem me dão a graça do perdão…
Os dois muito simpáticos, falantes e descontraídos. Ótimas companhias. A base da amizade estava fundada, como alicerce de uma casa. Dea me disse que eles demoraram mais uma meia hora e foram embora.
Não esqueça que tudo isto aconteceu no sábado. Na segunda-feira, por volta de nove horas da manhã toca o telefone. Atendi.
_Quem está falando? Perguntou a voz na outra ponta da linha.
Como, quem está falando? Quando eu telefono para alguém, digo: gostaria de falar com fulano, pode ser? Quando me perguntam quem está falando, digo logo, quer falar com quem? Foi o que fiz.
_Com Anchieta…
_Sou eu mesmo…
_Anchieta, é Jaílson… você me disse que viria a Bezerros hoje de manhã, ainda vem?
_Houve mudança de planos. Hoje, em Gravatá, é dia santificado e o comercio está fechado. Precisamos comprar alguns itens para levar para a academia e estamos impedidos. Fica para amanhã.
_Então vou passar por aí. Quero mostrar uma coisa que fiz este final de semana.
_Venha, então
_Dea, Jaílson está vindo aqui, agora.
_Fazer o quê?
_Vem nos mostrar uma coisa que ele fez este final de semana.
_Esse cara é maluco, como todos os artistas, disse Dea.
Ele chegou sorrateiramente, abriu o carro como quem abre a porta do templo; o templo que guarda o encanto, a formosura, a arte e sua mensagem.
Ele havia trabalhado desde que saíra de casa até a segunda-feira às sete horas da manhã, praticamente sem dormir. Tinha olheiras; profundas olheiras. O cansaço lhe fazia tremer as mãos. Não parou de falar um só segundo. Estava embalado pelo entusiasmo, pela emoção. Por primeira vez em sua vida havia pintado dois quadros em um único final de semana. Estava com os ombros caídos e o espírito saltitando de alegria, de felicidade. Havia realizado um feito nobre, digno de um cavaleiro da Távola Redonda; apenas trocou a espada pelos pinceis; a capa representada pelo seu talento; notava-se o espírito desbravador e a coragem digna do Rei Arthur. “UM NOBRE”, de sangue alagoano.
Trouxe para nós o primeiro quadro, numa moldura que teria provocado ciúmes à MADONA. Mostrou-nos a peça e mudo aguardou nossa reação. Também ficamos mudos, impactados, embevecidos, com a voz travada pela emoção. Não sabia em que detalhe fixar minha atenção. Comecei olhando o canto esquerdo superior; um pergaminho, velho de vinte anos, com dois rasgões na sua lateral. Rosas quase descoloridas, arriando para o oeste do horizonte poente. A tristeza estava representada por aqueles cachos cansados pelo desespero, pela decepção, pela frustração. Percebíamos um amor que agonizava. Lagrimas percorrendo todo o quadro.
Choramos o sentimento do respeito, da surpresa, do inesperado. Que momento lindo!!!
_Este primeiro quadro representa a fuga de Anchieta de Montevideo, deixando Dea com sua grande decepção, com sua perda, com um desfalecimento acabrunhado . Havia partido para sempre, o amor de sua vida, seu sonho de futuro, de casamento, de família com filhos e muitas carreiras. Tinha a alma partida, o espírito abalado pela lesão sentimental. A noite sem lume avizinhava-se para toldar seu tempo obscuro.
_Isto representa este quadro, nos disse Jaílson.
Depois desse esclarecimento, entendemos melhor o que nos dizia a tela.
Vimos com nitidez o episódio ocorrido vinte anos atrás.
_Agora vocês verão o renascer da vida, da fortuna, da bonança; nos disse.
Mostrou-nos a segunda arte. Rosas vibrantes em cores e formas, olhando para o céu, para o renascer da vida. O milagre da ressurreição. O amor de Dea havia vencido aquela batalha, assim como venceria todas as demais batalhas que estariam por vir, como a quebra de sua identidade, a difícil adaptação em um país desconhecido, os filhos partidos ao meio pelo divorcio, a dor da saudade de sua pátria deixada para trás; outra língua para aprender, uma massa cultural diferente de sua origem, novos amigos, outros parentes… iniciava-se uma caminhada longa e tortuosa, com perigos escondidos a cada curva, em cada arvore, em cada horizonte, em todos os amanheceres.
Aquele segundo quadro nos revelou a alegria da vitória, da conquista alcançada, refratando os novos caminhos.
No canto inferior direito, o pergaminho enrolava-se para resguardar a dimensão obtida; sem rachaduras, inteiro, incólume.
Queríamos falar e não nos acudiam as palavras certas. Aquelas capazes de demonstrar nossos sentimentos, nossos louvores. Conseguimos pronunciar alguns elogios bobos que não expunham toda a nossa gratidão e reconhecimento. Só conseguimos chorar, sem pejo.
Tenho ainda outra surpresa para contar. Letícia, nossa netinha, chegou em casa, como um bólido, como soe acontecer sempre que nos visita, ou seja, todos os dias. Entrou no nosso jardim espavorida e com os olhos arregalados de curiosidade; parou diante do quadro por um longo momento, e perguntou:
_Vovó, foi você que pintou estas rosas?
_Não, meu amor, foi Jaílson, este pintor que está ao seu lado.
_Vovó, as rosas são lindas… mas estão molhadas!!!. Não pode! Vai estragar…
Letícia tem apenas três anos de idade… do que se deduz a perfeição da obra. O “molhado” eram as lagrimas por cima das pétalas.
Como retribuir uma homenagem desse quilate? Não sei, não sabemos o que fazer em agradecimento ao nosso novo amigo Jaílson,
“O NOBRE ARTISTA”.

Anchieta
Gravatá – 27/-7/10

ESTRADA DE FERRO – poema Anchieta Antunes.
De ferro batido
no leito dos anos
dormentes dormidos,
unindo distancias
fazendo alarido
Estrada que leva,
pra longe da gente
lembranças mordazes
que junta e separa
saudades sofridas
de amores fugazes

Estrada de ferro
cruzando fronteiras
ligando nações
com sonhos de paz,
luzindo paisagens
de picos nevados.
de grutas escuras
de sonhos alados.

Nos trilhos deitados
fulgindo no lombo
as folhas dos tempos.
Brilhantes lampejos
ardentes e frágeis
guardando esperanças
de brilho candente.

Estrada de ferro
que vem e que vai
afronta barreiras,
canduras e dores
loucuras, amores
o fim e o começo.
de velhas historias
de honra, de gloria.

Caminhos dos campos
das pontes, das águas
a estrada viaja,
sibila, claudica
outros espirais …
do ontem e hoje,
as voltas da vida
que leva e trás.
ALAOMPE
Anchieta Antunes- Copyright
Gravatá – 30/08/2014,

Por: Anchieta Antunes

Tudo começou quando ele era criança; acendia uma vela e apagava a chama com um sopro. Passava horas e horas fazendo este exercício, como se tivesse recebido um comando de Deus. Cresceu acendendo e apagando centenas de velas; só não se exercitava quando estava na escola, aprendendo o bê-a-bá. Soprar velas era o seu melhor passatempo. Reverenciado como o melhor assoprador de velas da escola, como também do bairro, seu supino sopro era aceito como uma magia que só ele conseguia produzir. Paulatinamente começou a desenvolver habilidades insuspeitas, coisas que nunca lhe ocorrera. Se eu disser que se tratava de mágicas, estaria depondo contra um poder verdadeiro, porque o que ele fazia acontecia de fato, e podia ser constatado por qualquer pessoa. Mágica é um truque, geralmente conseguido com o auxilio da velocidade das mãos. Com seu sopro, ele calmamente fazia coisas acontecerem.
Ele era portador do “Sopro Divino”,
somado à magia. Não à mágica. Magia está ligada as faculdades internas da espiritualidade, com características ritualísticas e cerimoniais.
Ele situou sua morada no topo da Serra das Ilusões, que a ela se chega por uma trilha sinuosa, dentro da mata, por ele mesmo aberta com o auxilio de seu sopro da limpeza. Troncos e mais troncos foram ceifados da grande floresta que circunda a pequena cidade; ajustados miraculosamente, um ao lado do outro formando paredes e divisões internas, proporcionando uma excelente moradia. Tudo isto não passava de um encantamento materializado.
Foram três semanas de assopração vertiginosa, o coitado já estava com os pulmões ardendo de tanto soprar. Finalmente ele viu sua obra terminada; procurou uma rede para descansar; cadê rede? Não tinha rede, não tinha nada, só cansaço e assopração. Ele já estava ficando enjoado de seu dom. Dom que ele adquiriu com a repetição. Estava arrependido? Acho que não, porque quem faz uma casa soprando, também faz uma cama, uma rede, mesa, cadeiras, armários, guarda-roupas. Faz tudo que uma casa decente precisa. Era só afinar o bico e começar a soprar. Antes ele precisava repousar um pouco. Estava exausto. Ele era mago, mas era gente também. O trabalho de assoprar sem parar um segundo sequer, o abateu, e ali mesmo no chão de troncos justapostos, dormiu o sono do trabalhador incansável.
Ele acordou e não lembrava onde estava. Havia terminado de assoprar sua casa, digo, de terminar sua casa fazia apenas algumas horas; não tinha ainda o habito de residir em uma casa sua, só sua. Construída por seu sopro diligente. Como era muito jovem estava aprendendo a viver; já havia aprendido a soprar, isto todo mundo concordava, porém, a viver, podemos dizer que frequentava o jardim de infância. Como todo mundo, tinha de passar por todas as etapas; o aprendizado é duro, cruciante, requer dias e dias de elucubrações, de empenho e determinação. Mas ele ia conseguir, pois além de um excelente assoprador, era inteligente além da conta.
Que serventia tinha a faculdade de ser um excelso assoprador?
Isto eu ainda vou descobrir!!!
Antes que descubra não posso deixar de relatar uma tragédia que aconteceu na pequena cidade do assoprador. Inesperadamente caiu uma chuva torrencial, abundante, escorregadia e calamitosa; a lama descia ribanceira abaixo com a fúria da natureza bravia, incontrolada. Uma pequena cidade rodeada de serras, com grandes rochas e pequenos animais. Todos os paralelepípedos que calçavam as ruas eram retirados das rochas das serras da vizinhança. Pedras de excelente qualidade.
Só temos que admitir, ainda que a contragosto, que chuva não respeita nada, nem mesmo pedras da melhor linhagem. E quando todos olharam para o cimo do morro mais alto e enxergaram uma imensa rocha que parecia balançar ao sabor dos ventos molhados de chuva, ficaram petrificados de medo. Aquela coisa imensa, redonda, brilhante sob as gotas, parecia ter olhos para a cidade, ameaçando rolar para esmagar, para triturar, para espremer e deixar como massa de bolo, toda a população, que não era lá estas coisas todas, mas que era gente, isto sim, ninguém podia negar. Se ela rolasse ladeira abaixo, iria entrar pela parede da sacristia da Igreja Matriz, o que seria uma catástrofe irreparável, já que haviam demorado 15 anos arrecadando fundos para a construção da casa de Deus. O Vigário com seu cajado secular administrava a obra e cobrava com rigor que o trabalho fosse executado com precisão e bom gosto.
Aquela imensa pedra iria adentrar pela nave da igreja e talvez rolando até a praça adiante quebrar bancos e desfazer jardins. Um flagelo em plena luz do dia. O caramanchão no centro da praça que havia custado aos cofres públicos mais de dois milhões de reais teria sua entrada violada despudoradamente pela colossal bola de granito puro e reluzente. No centro da pérgula ficaria instalado aquele bloco sólido e incorruptível que descera do topo do morro, matando animais e formigas, e até mesmo cigarras em sua desabalada carreira rumo à devastação da “piccola ciudadela”.
Como evitar aquele desastre iminente? Alguém precisava pensar em uma solução urgente!
Eis que surge em plena praça, no pino do meio dia, o padeiro Hugo Tomas de Aquino Tancredo, com uma solução pitoresca, senão, folclórica. Ele disse: _Convoquemos, em regime de urgência, nosso conhecido assoprador irrecuperável. Manoel Marcius Augustus, para remover a colossal pedra ameaçante.
_E como ele faria esta proeza, digna de Hercules, perguntaram todos em uníssono?
_Ora! Simples como degustar meus pães! Ele sopra na base da pedra e ela rola para o outro lado da colina, e assim ficamos livres de passear no Campo Santo.
A sugestão foi um sucesso, só restava encontrar o assoprador Marcius para convocá-lo em nome da sociedade local. Resolveram dirigir-se à sua casa para conversar e convencer. Conversar conversaram, convencer, estava meio difícil. Marcius tinha medo de um fracasso retumbante.
Ungido que foi ao santuário dos feitos heróicos, Marciu capitulou, venceu o medo do ridículo, vestiu sua túnica branca e mágica e partiu, sob chuva torrencial para o local do iminente desastre colossal:
A ROCHA – O PÊNDULO – A MORTE.

Em lá chegando, ele rezou a oração do “vento forte e corajoso” , afinou o bico, e começou devagarzinho a soprar, como se não quisesse chamar a atenção da pedra imensa que balançava ameaçadoramente. A lama misturada à água da chuva foi preguiçosamente afastando-se da base, daquele perigo ondulante e oscilante, sob o efeito do sopro vigoroso; quando menos se esperou, a imensa rocha rolou encosta abaixo, derrubando, arrancando, e matando tudo que encontrava à sua frente e que poderia impedi-la de prosseguir seu caminho macabro, assassino; até que se chocou com uma sua congênere, maior ainda, e estacou para a eternidade.
E assim quero terminar nossa historinha sem o sacrifício de seres humanos, com a igreja inteira, sem o caramanchão decorado com uma pedra secular instalado em seu circulo interior. A paz voltou a reinar naqueles quintais onde se criavam galhinhas patos, e perus

Esta historia termina na paz, sem mortes, sem desastres irreversíveis, sem catástrofes irrefutáveis, sem a decepção da miséria.
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O leitor indignado pergunta:
E termina assim este conto? Que coisa mais sem graça, sem emoção ou entusiasmo! Todos vivos, saudáveis, felizes e sorridentes? Onde mora a desgraça nesta historia? Vê se inventa outra, esta não colou, não!

Parece que muitos estão habituados a conviver apenas com o resultado final, onde mora a expectativa negativa, que eles carregam no bolso da busca incessante que lhes acomete vivenciar. A estrada, o caminho, os acontecimentos, a preparação para o grande final, nada disto tem nenhuma importância; tenho a impressão que para alguns a vida tem sido vivida apenas para esperar a morte, a inevitabilidade do finito. Que a vida em si não tem valor nenhum, não passou de um passeio infrutífero.
Certas pessoas estão acostumadas a se alimentar do hediondo, como a hiena que se refestela com carcaças pútridas. A paisagem que emoldura o caminho não tem nenhum valor estético. A alegria de correr os olhos pelos campos verdes de seiva, ou brancos de cristais, morre ali mesmo na janela do trem que ronca na subida da vida.

Eu acredito que esqueceram que a melhor parte é a viagem, e não o destino.
Quando colocamos os pés na plataforma, vem o homenzinho fardado de anjo e nos leva a passear nas nuvens do ocaso feliz.

ALAOMPE
Anchieta Antunes – Copyright
Gravatá – 22/08/2014.

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