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ANCHIETA ANTUNES

Pra quê deblaterar contra a força de tendências obscuras, de vontades egoístas, de movimentos sorrateiros? Como aprender a caminhar no submundo de movimentos escusos, impuros; aprender a marchar no lodaçal com vermes engolfando-se em camadas pútridas e tilintantes.
Navegar na noite sem lua, distante dos ventos, em meio aos ruídos dos insetos, debatendo-se com a coruja, em vôo rasante, chocando-se com a cornija saliente da teimosia; todo este esforço não passa de uma jornada inglória, destinada ao fracasso, quando não se busca lisura, justiça. Este não é o ambiente propicio para a probidade progredir com seu andar solene. Melhor fechar os olhos e acordar em outras paragens plangentes.
Quando eu morava naquela casa isolada, na extremidade da rua, rodeado de terrenos de terceiros, cobertos de árvores e arbustos, emprestando-nos sombra, e vento fresco, e quando chegava tarde da noite com minha mulher, não tínhamos nenhum receio de sermos atacados por bandidos com armas nas mãos, não tínhamos medo de sequestro, não pensávamos em nenhuma violência, isto porque contávamos com um efetivo policiamento, e havia nos pratos da plebe, o indispensável alimento. Não se aninhavam em nossos corações medos e receios. Éramos livres e felizes como passarinhos no sitio. O maior medo era o de perder a hora de assistir a novela das oito.
Naquela época as casas não eram nossas presídios, as janelas não eram decoradas com grades de arabescos, pintadas de branco, de azul e cor de rosa. Tanto fazia lá dentro como lá fora, a liberdade era a mesma, a paz era nossa eterna companheira. O travesseiro servia para acolher a cabeça e não como arma de sufoco.
A brisa dividida escondia-se atrás de cada folha, espreitando-nos, e, quando nos via, vinha ligeira ao nosso encontro para brincar de correr, de voar, de soprar. Éramos amigos, companheiros e compartilhávamos nossos momentos lúdicos. Eu e minha companheira abríamos a porta do dia para nele entrar sem cerimônia, dispensando convites sóbrios, para entrarmos como amigos que éramos. A vida era um eterno sarau, onde os convidados degustavam aventuras audazes, dançavam ao som de melífluas gargalhadas, rodopiavam no grande salão do respeito e da decência. Nosso comportamento sempre foi translúcido como água de regato na floresta virgem.
Hoje os tempos são diferentes, até o sol é político e negociador nos corredores escuros da indecência. A vergonha vive escondida na Catedral do Dever Não Cumprido. Não pode mostrar sua cara sob pena de desaparecer nos escaninhos dos ministérios.
A alegria da vida está restrita aos lobos das estepes espúrias, sempre famintos de novas moedas, de grandes “contêineres” cheios de materiais dourados, de pérolas indecorosas transferidas das cavernas dos Ali Babas palacianos.
Correr nas ruas, jogar vôlei no campinho de terra negra, com os vizinhos amigos, brincar com as crianças das mães zelosas, comer do churrasco comunitário… nada disto existe mais, não existirá mais, não enquanto me dure esta vida de centurião romano, com a lança em punho guardando a vida da família. Imploramos que Esdras venha nos socorrer a todo momento, a cada dia que brilha na vila, impetramos a ele o dever da proteção enquanto cidadãos que somos. Virá?
Somos o guardião do cofre da vergonha, que os pútridos políticos lançaram na sarjeta do Congresso Nacional, onde os dejetos são o alimento diário da raça de homens desalmados.

ALAOMPE
Anchieta Antunes – Copyright
Gravatá – 24/05/14.

 

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O GRITO

Enclausurado na solidão da agonia,
no desamparo do sofrimento,
no precipício do ultimo suspiro,
o grito,
que pode salvar a alegoria da paixão,
a serenidade do amor,
e o entrelaçamento de mãos extremosas
na caminhada da eternidade.

Sob a luz do lampião
o calçamento adormecido por séculos sem fim,
guarda na memória todas as palavras
dos amantes passeantes,
no silvo dos ventos azuis
dos olhos chamejantes
das palavras púrpuras
e do encantamento.

Juvenil desabrochar
da mais pura historia interrompida
pelas mazelas da fatalidade,
do entardecer de distorções prevalecentes
de um elo mais forte que a vida.
Sobrevivente das teias
de um destino nefasto.
Aziago escusado pela eterna amante
de um amante distraído,
pelos sois de cada dia
pelas gotas de cada suor
pela prostração de cada noite,
de cada minuto transcorrido no catre solene da solidão,
e da saudade esquecida nas dobras dos tempos
de cada momento sofrido.

O grito,
que veio para estabelecer-se
nas paredes do casario do amor eterno,
nas veias pulsantes do vibrante deleite
da imagem presente em cada fimbria
de outras vidas…
Eternizadas nos tempos de hoje,
divididas em dois corpos,
unidas nos mesmos pelas correntes da paixão.

Perpetuadas para todo o sempre.
ALAOMPE
Anchieta Antunes Copyright
Gravatá – 13/07/2014.

Comprar e vender produtos pela Internet são práticas cada mais comuns. Junto com essa tendência cresce o número de serviços de pagamento online, chamados também de carteira digital, que servem como intermediadores entre consumidores e comerciantes, sejam eles grandes lojas ou vendedores autônomos. Para ajudar a escolher um serviço, veja a lista com cinco opções de pagamento virtual.

O que é HTTPS e como ele pode proteger a sua navegação na Internet

Plataformas como PayPal já são extremamente populares em lojas virtuais. Outras, como o Google Wallet trazem a tecnologia da carteira digital. Ainda pouco difundido no Brasil, o recurso transforma celulares e tablets em cartões de crédito e permitem realizar transações financeiras de forma simples.

1) PayPal

O PayPal é o mais popular serviço de pagamentos via Internet. Pioneiro no segmento, ele serve tanto para quem quer comprar quanto para o internauta que deseja vender algum produto online. O sistema funciona como um banco que armazena dados pessoais e bancários, oferecendo a vantagem de não repassar ao vendedor as informações do comprador, como o número do cartão de crédito, funcionando como um intermediário da compra via Internet. O consumidor paga ao PayPal, que paga para a loja.

O que é Paypal e como funciona o serviço?

O recurso também devolve ao consumidor o valor do produto, caso este não seja entregue. O PayPal aceita pagamento por cartões de crédito, parcelando em até 12 vezes, além de permitir o débito em conta e oferecer o PayPal Mobile, que permite fazer pagamento em lojas físicas por meio do celular ou do tablet. O cadastro, download do aplicativo e a utilização na web e no celular são gratuitos, mas para transações internacionais pode haver cobrança de taxas de conversão de moeda e impostos.

Adicione um dos seus cartões ao PayPal (Foto: Divulgação/Paypal)Adicione um dos seus cartões ao PayPal e utilize para pagamentos online (Foto: Divulgação/Paypal)

 

2) Google Wallet

O Google Wallet é a carteira virual do Google. Funciona como um aplicativo para Android e iOS, desenvolvido para facilitar qualquer tipo de pagamento online, inclusive entre amigos e familiares. Se o consumidor já tiver usado o Google Checkout anteriormente, ele já tem um cadastro. O serviço permite receber ou pedir/cobrar dinheiro, e faz o controle do seu orçamento automaticamente.

Outra característica peculiar é a capacidade de armazenar dados dos seus cupons de presentes e programas de fidelidade. Basta que o usuário cadastre os números dos cartões para fazer compras online, que também podem ser realizadas com dinheiro. Nesse caso, é cobrado 2,9% do valor da transação, enquanto que para receber não há taxas. O aplicativo ainda não está disponível no Brasil. Porém, é possível criar uma conta e usá-lo via web para fazer transações em lojas internacionais.

Google Wallet, app para Android e iOS que permite pagamentos online (Foto/Divulgação) (Foto: Google Wallet, app para Android e iOS que permite pagamentos online (Foto/Divulgação))Google Wallet, app para Android e iOS que permite pagamentos online (Foto/Divulgação)

 

 

 

 

 

 

 

3) MercadoPago

O Mercado Pago é a plataforma do Mercado Livre, site de compra e venda online, para receber pagamentos de transações via Internet, realizadas pelo site e aplicativos para dispositivos móveis. Ele é destinado para quem está vendendo produtos ou serviços, sendo cobrado 4,99% por cada pagamento aprovado fora do MercadoLivre, onde o comércio é isento de taxa.

Os clientes podem pagar via cartão de crédito, com parcelas de até 12 vezes, ou com boleto bancário, à vista. O valor é creditado na conta do MercadoPago, da qual pode ser transferido para a conta bancária do usuário. A plataforma também oferece administração dos pagamentos e prevenção de fraude.

MercadoPago não cobra taxas para quem usa o Mercado Livre (Foto: Divulgação/Mercado Pago)MercadoPago não cobra taxas para quem usa o Mercado Livre (Foto: Divulgação/Mercado Pago)

 

4) Pagamento Digital Bcash!

Atualmente chamado de Bcash!, o Pagamento Digital é uma plataforma do Buscapé que faz a intermediação de transações financeiras para compradores e vendedores. Seu diferencial é o limite de crédito, que funciona de forma similar a de um cartão, possibilitando compras até uma quantia determinada (R$ 1 mil para pessoa física e R$ 2 mil para empresas). É possível aumentar esse limite, mas para isso é necessário comprovar titularidade, endereço e conta bancária. Assim como os concorrentes, cadastro e uso são gratuitos com cartão de crédito e boleto bancário.

Bcash!, o antigo Pagamento Digital, é do Buscapé (Foto: Divulgação/Mercado Pago)Bcash!, o antigo Pagamento Digital, é do Buscapé (Foto: Divulgação/Mercado Pago)

 

5) Moip

O Moip é um intermediador de pagamentos online que tem como atrativo uma poderosa ferramenta de verificação de fraude. Seu algoritmo implementa mais de 400 regras de análise em cada processo e, caso verifique algum problema, a transação passa por avaliação humana.

Segundo os termos de uso do Moip, o sistema conta com 15 opções de pagamentos online, abrangendo cartões de crédito, débito, boleto bancário, débito em conta e pelo celular. Além disso, o sistema permite definir a quantidade de parcelas para pagamento à prazo (até 12 vezes), antecipa o recebimento do valor do produto em até dois dias e não exige cadastro dos compradores.

Pagamento online com Moip é aceito em diversas lojas brasileiras (Foto: Divulgação/Moip)Pagamento online com Moip é aceito em diversas lojas brasileiras (Foto: Divulgação/Moip)

Por Anchieta Antunes

Não sei exatamente onde aconteceu este acontecido; talvez na America do Sul, ou quem sabe entre os “Comanches”!
O fato é que houve um “chamado guerreiro raquítico”; não que ele fosse guerreiro; raquítico sim, ele era.
Quando a mulher – “BUNDA ARRIADA – do “Cacique”- “CABEÇA DE VENTO” embuchou, ele foi logo dizendo:
_Meu filho vai ser o mais aguerrido guerreiro da nossa tribo, vai ser o chefe dos grandes lutadores, o nosso “general” intrépido e invencível. “que vengan las peleas”
Esclarecimento: Bunda Arriada: não precisa nem esclarecer, é só
olhar pra figura; ela não está transportando nenhuma trouxa de roupas sujas nas costas, é a bunda descaída, mesmo.
Cabeça de Vento: este nome vem do fato de o Cacique gostar de exibir uma imensa cabeleira, e nos campos “descampados”, quando o vento sopra forte, seus cabelos esvoaçam turbilhonado como hélice de avião em 5.000 rpm.
Todo mundo sabe que tribo de indígenas não tem general, mas nesta estória é como se tivesse, só para simplificar o conto. Acontece que “GUERREIRO EXALTADO” (este foi o nome que o Cacique deu ao filho ainda na barriga da mãe) quando completou 10 anos, saiu para aprender a caçar com o tio – Pena Branca – e os dois, que não haviam olhado para o céu, agarraram uma chuva daquelas de arrancar pinheiro pelo tronco.
No dia seguinte Guerreiro Exaltado estava de cama com uma gripe dos seiscentos diabos, e de gripe evoluiu para uma terrível pneumonia. Flecha Quebrada montou seu azarão, digo, alazão, e foi buscar Juan Mendes, o médico de família, cubano, encarregado daquela tribo de simpáticos guerreiros.
Guerreiro Exaltado escapou da morte por chuva, mas teve que trocar de nome. Cabeça de Vento queria mudar o nome dele para “VENCIDO PELA CHUVA”, no entanto seus parentes mais próximos acharam que seria uma tremenda humilhação, por isto resolveram se aconselhar com o “CONSELHO DE GUERRA”. O Conselho de Guerra, dialogou por três dias e não chegou a uma conclusão, por isto resolveram se aconselhar com o “CONSELHO DA PAZ”.
O Conselho da Paz, que está acostumado a resolver os grandes pepinos da tribo, logo encontraram uma solução, ou seja, um nome apropriado para Guerreiro Exaltado, e o Chefe do Conselho da Paz, aconselhou o Conselho de Guerra a mudar o nome do guerreiro vencido, para “GUERREIRO RAQUÍTICO”.
Tudo tem uma explicação, e a explicação para raquítico, é porque ninguém na tribo sabe o que é raquítico, a não o chefe do Conselho na Paz. 2- na tribo não tem dicionário; 3 – ninguém é maluco de perguntar na cidade mais próxima do “faroeste” o que significa raquítico, pois seria uma declaração de ignorância. Quem quer ser ignorante? Eu não quero!!!
Flecha Quebrada, que vivia treinando “flecha ao alvo”, atirando flechas numa árvore perto de uma grande rocha, não acertava nunca na mangueira; a rocha estava riscada de pontas de flechas rascantes, embora suas flechas não fossem adstringentes.
Guerreiro Raquítico e Flecha Quebrada eram grandes amigos, e viviam pescando no rio, quando os Conselhos acampavam perto de um. Quando não havia água por perto, eles entravam na floresta para caçar passarinho com “baladeira” “estilingue” “funda” etc.
Guerreiro Raquítico, por ser raquítico nunca subiu num cavalo, por isto mesmo nunca foi para uma guerra, que por sinal já fazia 50 anos que não havia guerras para ser lutadas, o que significa que G. R. morreu sem guerrear, coitado.
Flecha Partida continuou treinando flecha ao alvo sem nunca acertar nem um tronco de imbaúba. Coitado também.
Como o protagonista da historia morreu, vou ter que terminar dizendo que “ESCOLHAM BEM OS NOMES DOS SEUS FILHOS, PARA EVITAR TRAUMAS IRREVERSIVEIS”.

ALAOMPE
Anchieta Antunes
Copyright
Gravatá – 20/07/2014.

POR ANCHIETA ANTUNES

Ele estava escarranchado lá na ponta do velho muro sem reboco, de bermuda rasgada, os pés pendurados sem as sandálias, os ombros caídos e o olhar derramado sobre o pedregulho e poças de chuva. Ele morava numa manilha de adutora; ali ele pendurava sua rede, olhava-se no pequeno pedaço de espelho preso na parede; na trempe de ferro cozinhava seu mingau diário. Com a cabeça prateada e a barba por fazer com aquela navalha cansada de raspar seus pelos hirsutos e grisalhos, o ancião caminhava nas velhas e conhecidas ruas do lugar. Olhava o acontecido que fazia pouco tempo de acontecer. Devastação. De vez em quando os olhos baços escorregavam pra cima como que para lembrar o que tinha visto. Foi assustador; também foi emocionante.
Começou com o mundo escurecendo em pleno dia. Que será que está acontecendo? Perguntavam todos. As portas da frente e do quintal eram poucas para dar vazão a tanta gente curiosa. Todo mundo correndo pra rua ou pro quintal, pescoço esticado, mão em pala e o olhar assustado, como se estivessem vendo o fim do mundo; ou o começo do fim.
Os meninos sorriam e choravam ao mesmo tempo, com um medo medonho. Os menores agarrados na saia da mãe, as meninas de mãos dadas com o pai. Parecia a confraternização do horror, a janela do holocausto, o som binário do trovão rouco e cansado das alturas. Aquela massa escura não mostrava nenhuma brecha de boa vontade, de benevolência. Parece que tinha vontade de sufocar o mundo todo com seu manto escuro e indevassável.
O velho estava em sua morada, resguardado pela altura, protegido pelo fatalismo. Dalí ele via tudo e nada podia atingi-lo; de lá ele observou ao redor, e percebeu a aproximação do desastre, que vinha chegando pintado de negro, e do vermelho escorrendo na palheta do momento angustiante.
Mais pra baixo, pros lados da Estação, sob a alameda de jambeiros, o homem vinha pedalando sua bicicleta com total displicência, como se tivesse toda a eternidade à sua espera. No caminho sem trânsito, algumas charretes cavalgavam em direção a algum interesse humano, perto ou longe. O ciclista olhava para um lado, para o outro, procurando ver a corrida aflita de uma lebre, de um coelho, de algo pulsante para prover seu jantar e o de sua morena dengosa. Em nenhum momento levantou os olhos para o céu aterrador, ainda silencioso.
No campinho onde a meninada da escola brincava de criança desprevenida, o vento irreverente levantava a poeira; alguns galhos secos e papeizinhos de bombons: apenas trocando de lugar aquele lixo lúdico e irresponsável. Não havia ninguém a descoberto. O céu conjurava em assembléia. O velho observava…notou a falta daquele menino que sempre jogava sozinho com uma bola de borracha. Nem ele estava preenchendo um pedaço do espaço do campinho.
O sino da Capela começou a dançar, empurrado pelo vento que chegou com força e rugindo entusiasmo. O badalar soava sonoro e aterrador, prenunciando a chuva transformar ruas em rios. Não demorou muito!
De repente, mais rápido que o passamento, o ciclista foi jogado contra o tronco, onde ficou preso pelo impacto, juntando sua seiva vermelha à da arvore; em alguns dias serviria apenas como adubo orgânico. Morreu antes do coelho.
O sol amedrontado recolheu-se mais cedo; foi dormir pacificamente no fundo do horizonte, onde descansam as lembranças, onde dormem os amores eternos, onde a memória perde o brilho da vida, onde o coração dormita seu ultimo alento.
O manto pegajoso e de olhos bem abertos roncava seus trovões assustadores, preenchendo o eco vazio da serra distante, retalhando os ventos passantes, enchendo o mundo todo de rancor, de pavor, de horror. Ameaçava lançar-se de uma só vez, como se fosse um balde jogado ao acaso. Eram milhões de metros cúbitos de água grossa e traiçoeira. Nenhuma alma hidrófoba conseguiria nadar na sua trajetória de redemoinhos endiabrados. Arriou como o cansaço arria o homem cansado do cabo da enxada mexendo na roça. Chegou para destruir e depois ir embora, como se não tivesse feito nada de mal. Pura natureza.
Rios inteiros desabaram de uma só vez; os relógios pararam por três horas, três anos, por todos os séculos. As veredas, ruas, becos e estradas estavam embaixo d’água, como se um grande Nilo tivesse vindo deixar seu limo vivificador sobre a terra inerte. Um grande espelho ondulante deslizava vale abaixo refletindo a luz do sol ressurgente. A fúria liquida havia trocado nas casas, os móveis por lama pura e fétida. Os telhados foram transformados em leitos, em berços, em pesadelos recorrentes.
Uma semana depois o esqueleto da vila estava à mostra, caveira suja sem vida, carente do sopro de Deus. Pedras soltas junto à parede da casa em desalinho, galhos inteiros e uma árvore com um corpo pregado no tronco; não muito distante uma roda de bicicleta retorcida como um pensamento cruel.
Sobrou uma horda de órfãos: órfãos de pais, mães, tios, primos, irmãos, avós, amigos, namoradas, vizinhos, rivais, antagônicos, e os apenas conhecidos da bodega da esquina, onde se tomava, todas as tardes, a cachaça do congraçamento. O lugar estava triste: todos estavam tristes.
Da cumieira do rancho o menino guardava com cuidado dobrado, a sua bola de borracha.
O velho continuava balançando-se na sua rede, com o mingau pronto para ser sorvido. Sua manilha estava seca como sempre esteve; o espelho estava ali, preso à parede, suas sandálias atiradas ao deus dará, e sua vida não sofrera nenhum revés. Apenas havia caído uma chuva forte lá em cima na adutora. Ah! Na cidade também. E ele, o velho continuou ali tão somente como
O OBSERVADOR

Só perde o que tem
quem tem o que perder.

“Santa Catarina – Rio Grande do Sul – Japão”

ALAOMPE
Anchieta Antunes
Copyright
Gravatá- 19/07/2014.

ANCHIETA ANTUNES

Fiquei muito chateado e tive um bate-boca sério com ele, que entrou no meu quarto com uma voracidade incrível, escancarando minha janela como se fosse o dono da casa; mal educado e arrogante, não teve nem a delicadeza de mandar uma brisa avisar que estava chegando para uma visita de cortesia. Cortesia coisa nenhuma, foi abrindo revistas, revirando as folhas do livro que estou lendo, levando o lençol para o outro lado da rua dos sonhos, batendo portas e derrubando o jarro de cristal que a minha mulher tanto gosta; ela ficou desolada, embora a peça de seus sonhos não tenha sido quebrada. Todos no quarto e na sala ficamos assustados com o despudor, com o comportamento predatório do elemento ufano. Ele continuou percorrendo toda a casa, como se estivesse procurando alguma coisa importante. Não estava em busca de nada, era pura curiosidade.
Fiquei indignado quando ele tentou me subornar, dizendo:_eu conheço muitos segredos que posso revelar para você!
_Segredos? Quais segredos, segredos de quem, e para que quero conhecer os segredos de outras pessoas?
_Conheço todos os segredos da natureza, como também das pessoas, inclusive figuras importantes da sociedade. Quer que lhe diga? Pelo menos é uma maneira de me desculpar pelos estragos que fiz na sua casa; por sinal, percorri sua casa toda e não descobri nada interessante, que coisa mais sem graça!
Eu não tenho, nem minha família tem segredos! Apenas carregamos calados nossas dificuldades, que ninguém precisa saber, principalmente porque não vão resolver nada.
Ele me revelou umas coisinhas que me deixaram bastante intrigado, por exemplo: quando ele está descansando em sua caverna predileta, lá no Himalaia, recebe ordens de destruir cidades inteiras, arrasar vales e montanhas, tudo na sua forma mais furibunda, e assim, de um momento pra outro, não tem nem tempo de se espreguiçar, bocejar e soltar os suspiros matinais. Ele desce da Cordilheira de olhos fechados para não ver o estrago que vai deixando atrás de si, como um maluco endiabrado, não deixa pedra sobre pedra; e o pior de tudo é que é aconselhado a não sentir remorso.
Ele tem um irmão que adora vaguear por entre as árvores das florestas, alisando o dorso das feras, quebrando galhos pendentes, derrubando pássaros passantes. Escuta a conversa dos papagaios, observa o namoro do uirapuru, e grita com a araponga, depois vai arrepiar a nudez do igarapé, e não deixa de se escarranchar no último galho da samauma.
Na praia ele empurra a “caravela” para a beira-mar, deita-a na areia e fica esperando as crianças virem brincar com o ácido azul. Não faz isso por maldade, apenas obedece sua natureza.
No “Sertão”, um primo pobre do nosso amigo gigante, chamado “pé de vento” aparece do nada, levanta poeira, alguns galhos secos, e vai embora deixando pra trás o som de sua gargalhada por ter assombrado um monte de passantes. O pé de vento é rápido como um raio, e sobe no ar espiralado, rodopia e desaparece como alma deambulante. É filho único.
Pois é, meu amigo vento chega quando quer, sem avisar, e muitas vezes quebrando tudo que encontra pela frente, como se fosse o dono do mundo. Ele é irreverente e audaz, não pede licença, nem se desculpa por nenhuma desfeita. É atrevido como a luz do sol, só respeita as cavernas profundas, onde não consegue penetrar.
Meu amigo vento pode ser chamado de

“tornado” “furacão” “tufão”, “vendaval”, “ciclone”, “redemoinho”, “tempestade”.“aragem” “brisa” e apenas “vento refrescante”.

ALAOMPE
Anchieta Antunes
Copyright
Gravatá- 16/07/14.

ANCHIETA ANTUNES:

Assim começa a peleja, depois dos vibrantes e sonoros “HINOS NACIONAIS”. Um olho no arco adversário e o outro na conta bancaria. Vamos suar as camisetas, afinal não somos nós que as lavamos! Temos que justificar nossa presença nesta arena repleta de sofredores entusiastas e esperançosos. Se der para ganhar, ótimo, se não, nossos contratos já estão firmados.
Milhões ou bilhões foram acarreados na preparação dos espetáculos. Nós somos “o espetáculo”… Muitos trabalhadores foram felizes por um ou dois anos, durante as construções. O leite dos meninos estava garantido… O sorriso bailava em cada expressão. A população negra juntou-se à branca em jubiloso congraçamento. Todos os atos de bondade e coragem são admitidos.
. Os corações latejam em cada peito, a expectativa libera o fausto, a magnificência transita pelas esquinas do opulento espetáculo coletivo. Festa, festa, festa… Não há razão para mau humor ou pessimismo. A bebida está liberada, a comida, idem, os hotéis luxuosos esmeram-se no atendimento. Sim! É a preço de ouro, mas pra que fazer economia neste momento de euforia? Depois do ultimo silvo, vamos esperar mais quatro anos; de economia, de preparação, de roupas esdrúxulas, de máscaras bizarras; é a ocasião propicia para nos expormos, mostrarmos quem somos por dentro, porque por fora é apenas a casca, a armadura do dia a dia.
A televisão, o radio, revistas, periódicos, construtoras, multinacionais, as grandes marcas e “grifes famosas” – todos saem ganhando, até mesmo o pobre trabalhador. Se o sarau é universal, por que não usufruí-lo? Se é um momento surreal, dele temos que participar, marcar nossa presença, deixar assinalada nossa personalidade, apontar no solo pátrio nossas pegadas, como que dizendo, “estive aqui” nesta arena, neste palco de espetáculos, e participei de todo o evento.
O ganhador não se restringe ao único que levanta a ‘TAÇA”. Todos são vitoriosos, exuberantes e satisfeitos pela participação no lance da CATEDRAL das vaidades afloradas, sob o sol ameno, do clima fresco de ventos ondulantes. As cabeleiras louras, negras e brancas espargem seus fluidos viscerais, impregnando a todos que por ali vagueiam. Passa a existir uma fraternidade momentânea que nivela até mesmo os mais desprotegidos.
A festa ecumênica onde se adora uma bola que tem vida própria e os pés dos contendores. O bezerro de ouro que os impacientes moldaram para suprir a falta de um DEUS presente para ser adorado.
Depois, o quadro é revertido para a solidão, para o desconforto do trabalho escravo, para o esquecimento dos promotores da salada de idiomas e opiniões. Cai a noite e os refletores não se acendem nos estádios soturnos, porque não há mais espetáculo nem motivo de ganância.
Quem ganhou, ganhou, quem perdeu, também ganhou. Todos ganharam; até o esquecimento, porque outras batalhas precisam ser montadas para gáudio dos organizadores da arena dos gladiadores.
Foi lindo, maravilhoso, espetacular, magnificente, exultante, alegre e triste, só dependendo da nação de origem.
Que venham mais COPAS – mais trabalho, mais entusiasmo, alegria e o leite dos meninos.

ALAOMPE
Anchieta Antunes
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Gravatá – 13/07/14.

BRASILApós a derrota histórica por 7 a 1 para a Alemanha, no Mineirão, pela semifinal da Copa do Mundo, a seleção brasileira desembarcou no Rio de Janeiro na madrugada desta quarta-feira, na Base Aérea do Galeão. O ônibus da delegação saiu em direção à Granja Comary, em Teresópolis, onde os jogadores ficam concentrados.

Pouco mais de dez torcedores acompanharam a saída do veículo. Alguns demonstraram indignação, com gritos de “vendidos”. No portão da Base Aérea, policiais do Batalhão de Choque, com capacetes e escudos, faziam a segurança preventiva contra qualquer manifestação mais violenta contra a delegação.

Ônibus da Seleção segue escoltada a caminho
da Granja Comary (Foto: Raphael Bozeo)

Na estrada, alguns torcedores com a camisa da Seleção esperaram o ônibus passar e apoiaram com gritos. Já em Teresópolis, Maria Alice, Gabriela Quintanilla, Danielle Gervazoni, Daniel Gervazoni, Rafael Gervazoni e Desirée Salles foram os únicos torcedores dispostos a enfrentar o frio e a chuva fina de Teresópolis para dar apoio a Seleção após derrota histórica. Para Maria Alice, que veio prestigiar a seleção em outros momentos da Copa do Mundo, agora é importante incentivar o grupo para disputa do terceiro lugar. O ônibus chegou à Granja Comary 1h50. Pela janela, jogadores observaram o paredão de homens do Exército e da Polícia, que temiam protestos.

- Perdeu, ficamos tristes, mas viemos aqui prestar nossa solidariedade porque somos brasileiros.

Contrastando com o espírito de solidariedade dos poucos fãs presentes, duas faixas na entrada da Granja registraram a frustração da torcida brasileira com a acachapante goleada sofrida para a esquadra germânica. Enquanto uma usava o bom humor, a outra estampava a expressão “vergonha”.

- Holanda ou Argentina, o terceiro lugar é nosso – disse Desirée.

Cantando o famoso refrão “sou brasileiro com muito orgulho e com muito amor”, eles cantaram alto quando o ônibus passou.

No próximo sábado, o Brasil disputa o terceiro lugar com a equipe que perder a partida entre Argentina e Holanda, às 17h, no Mané Garrincha (Brasília). A final do Mundial será no domingo, às 16h, no Maracanã (Rio de Janeiro). Os alemães já estão garantidos na disputa

G1.com

ANCHIETA ANTUNES

Qual o mais forte, o mais poderoso, o predominante? Depende apenas do momento; se for de manhã bem cedo, às cinco da manhã, o sol vence a noite e trás o dia para brilhar; se for ás cinco da tarde, a noite vence o sol e trás as trevas para reinar. Não existe o mais forte, nunca existirá, apenas em algumas situações prevalece o mais astuto, haja vista a lenda de David e Golias.
O cara que inventou essa lenda é um gênio. Uma historinha boba de um gigante imaginário e um menino perambulando pelas areias quentes dos desertos: pega sua funda, e uma pedra que, providencialmente, estava aos seus pés, gritando para o infante: agarre-me, pois eu faço parte da lenda; neste momento sou o protagonista bem sucedido, lance-me, e deixe o resto comigo, sei o que fazer para torná-lo famoso.
O mundo todo fala de David, e comete assim, uma tremenda injustiça: ninguém fala da pedra, aquela pedra que derrotou o gigante Golias. O gigante, um imenso homenzarrão todo deformado, estrábico, e meio (para ser bonzinho) estúpido, olhava para o garotinho, apalermado e ao mesmo tempo pensando: “logo eu, vou ser o vencido, derrotado por este menino que mal posso enxergar, isto é uma injustiça insensata, que não deveria ir para os compêndios de bibliotecas”. Reclamou e morreu como ditava a lenda. Caiu duro pra trás; não deu tempo nem de gemer.
Todos ficaram encantados com a façanha do pequeno David que derrotou o gigante Golias.
Neste momento percebo que o insensato sou eu, pois estava falando de sol e noite, e saltei para uma história da carochinha. Vamos voltar para o titulo, só que não sei se começo falando do astro rei ou da noite dos trovadores. Parece que a noite é mais romântica e poética, e que esconde muitos mistérios, segredos funestos, e outros fantasiosos e irresponsáveis. Não sei, pois nunca me disseram se foi à noite que Adão rompeu o lacre de Eva, ou se foi no lume do dia, embaixo da parreira, aquela, com os últimos lançamentos da moda, a tendência da folha única.
Ah! Se arrependimento matasse!!! Matutava Adão.
Outra invencionice que me vem à memória e, ou melhor, ao meu pensamento brincalhão, é a historia de Sansão e Dalila. Ele com uma cabeleira esfuziante, ondulada e saltitante ao correr dos ventos, brincava o tempo todo de bater nas pessoas, até mesmo as mais fortes, fisicamente, que ele; naquela cabeleira guardava toda sua força, o que era um segredo de Estado, contudo, Hedy Lamarr o descobriu durante um porre que o velho Sansão tomou na mansão da insidiosa Dalila. Foi a sua desgraça e quase o fim do filme.
Na noite avançada, Dalila mandou chamar o barbeiro da corte para cortar rente, o cabelo do imprudente guerreiro solitário, o que foi feito rapidamente. Quando Sansão acordou do porre, quando a ressaca estava escorrendo pelo ralo do banheiro, ele, inadverditamente passou a mão na cabeça e entrou em desespero. A primeira coisa que pensou foi: ”meus desafetos vão se vingar direitinho, não tenho escapatória, senão me esconder”. A questão era: esconder-se onde? Ele era conhecido como o arruaceiro do momento, ninguém iria ajudá-lo a se esconder. O fato é que ele ficou careca, cego, furioso e sem força nem para levantar uma carcaça de burro. Sua “ira era” com Dalila, a arrependida a destempo. Depois que os cabelos cresceram ele derrubou duas imensas colunas e morreu esmagado.
Nada disto tem a ver com o sol e a noite. Estou variando.
A noite é a grande pedida para os pecadores sorrateiros; a traição e o perjúrio bailam no palco noturno, no ângulo mais escuro da cena pecaminosa. Mas, nem tudo na noite é feito de maldade, de traições, também temos os reflexos dos fogos de artifícios, o brilho no lago, os bailes em salões brilhantes e almofadados. Temos o momento mágico do milagre da vida, quando os amantes sacramentados elaboram a existência de outros seres.
A noite é maravilhosa, principalmente para dormir, depois de um dia “com sol” de trabalho e suor. Os seresteiros encomendaram a noite para dedilhar seus violões sob a janela da donzela apaixonada. Muitos casamentos são o resultado de balcões enluarados. Até mesmo Cyrano de Bergerac usou deste expediente para fazer sua paixão transbordar nos lábios de outrem. Resultado: o cara comeu o chocolate e ele ficou com o papel de seda enrolado na mão!!!
Nos raios do sol existem miríades de papelotes onde se lê: TRABALHO. Parece que o sol só serve pra isso: trabalhar. Não que seja contra o trabalho, mesmo por que, segundo os filósofos dizem que o “trabalho enobrece”. Lá isto é verdade, mas ninguém trabalha só para ser nobre, quem afirmar isto é um temendo mentiroso, pois a principal função do trabalho é ganhar dinheiro. Rico nobre é muito melhor que nobre pobre.
Por estes e outros motivos que não me ocorrem no momento, a noite foi inventada para guiarmos nossos instintos mundanos, libidinosos e ufanos. Quando a gente quer brincar de safadeza com a namorada, não há nada melhor que a luz do poste queimada; temos o escuro e a coluna de concreto para encostar a incauta seduzida. Nove meses depois, ah! Nove meses é muito tempo, depois a gente vê!
É por essas e outras que o mundo está cheio de “curumins e cunhantãs”, meninos e meninas e mais duzentos e trinta idiomas.
Os meus de há muito que foram providenciados, e eles mesmos já cuidaram de progredir com a raça humana, agora só resta ler um monte de baboseiras que se escreve quando não se tem o que fazer.

ALAOMPE
Anchieta Antunes
Copyright
Gravatá – 05/07/14.

ANCHIETA ANTUNES

Fui um navegador de ruas e avenidas, até de becos escuros, onde as sombras escondem-se para assustar os andarilhos infaustos.
Não entendo nada de latitude e longitude, a não ser que “longitude” signifique que fica longe de tudo, de todos, de nós e dos outros, e latitude que fica logo ali ao lado, do outro lado da rua.
Renegando latitudes e longitudes, afirmo que o sol acorda no Saara e se deita no Sertão.
No sertão, quando acontece de ele se banhar nos pingos do inverno, vemos alguns pequenos mares isolados e barrentos, salpicando a paisagem de secos galhos, de folhas amarelas, de frutos mirrados e podres, de carcaças abandonadas no terraço da desilusão dos sertanejos.
O sol, quando chega para descansar no negro manto da noite estrelada, deita-se nos lajedos, esparramando-se por até as bordas, esquentando a brisa que sopra com medo do calor espiralado.
As terras saltitam como pipoca no caldeirão da vastidão isolada do mundo conhecido como tal. Até os insetos voam alto com receio de despertar o calor recolhido nas areias, no barro, na terra crua; o calor continua relaxado sob uma abobada crepuscular com vontade de permanecer por apenas uma eternidade.
Panos abrasivos pululam ao rés do chão quais imensos tapetes sobrevoando gretas e rochas, espinhos e palmas, que guardam no seu ventre o milagre da vida: a água. Uma visão fantasmagórica, com olhos de acuidade, enxerga o vai e vem do flagelo fluido, volátil, vil e sedicioso: o calor que volteia sobranceiro de um lado para outro, intimorato.
Quando a brisa matutina anuncia sua presença fresca e plácida, como um cão escorraçado, o calor opaco afasta-se indignado com tamanha ingratidão; quem já viu não gostar de morrer cálido, suado e languido, deitado no solo mãe, madrasta e alcoviteira. Que insistência em não aceitar o destino! Por que não escolheu nascer no mar, no lago Baikal, Ness, ou na Lagoa Rodrigo de Freitas?
_Porque ninguém escolhe onde nascer, quando e onde; ao abrir os olhos já está nascido, chorando o primeiro choro, acossado pela fome, seco de sede ou sentindo a falta de carinho.
Um fogo caminhante sobre as areias douradas de um deserto que não tem fim abduz animais pequenos e grandes, o macro e o micro. A onda maciça e acachapante de temperatura ardente esmorece deuses e vassalos, heróis e covardes, guerreiros e lavradores. Todos sucumbem sob os raios ultravioletas. Os desertos não foram criados para a vida, antes para sacrilégios dos ateus. Os sarcófagos dos pecadores.
A mão em pala abstrai horizontes infindáveis e cada vez mais distantes; as víboras correm na camada inferior das areias, e as vemos como se fossem um ensaio com lápis, de desenhista endiabrado. Os lagartos saltam metros imensos à procura de insetos mumificados pela onda quente, esvoaçando no tremeluzir do torpor ondulante.
O Oasis é um milagre que brota no meio do nada, com água, sombra e castanhas. O homem e o camelo bebem juntos os goles da preservação. O bicho guarda,… o homem sua. Os humanos andam vestidos de múmias, enrolados em panos brancos tentando afugentar o lume do círio abrasador. Nascem nus e morrem cobertos. Nascem agnósticos e morrem santos, purificados pelo astro rei.

A T E R R A

A terra alterna calores, frios e humores. Picos nevados, vulcões crepitantes, lavas e avalanches. O cardápio terráqueo é rico, variado, mágico e surpreendente. O arco-íris de múltiplas cores é imensurável, curioso, e oferece desertos na África, no Chile, algures; lagos na Rússia, Escócia, além dos charcos barrentos do sertão, cada qual com seu tom de verdade desolada. Vemos picos e depressões, planaltos, e “canyons” nas Américas; vemos rios caudalosos, e rios secos onde corre célere o vento vestido de areia.
Lambaris e baleias; é só uma questão de tamanho, a essência é a mesma. Os dois lutam a vida aquática, ganhando várias pelejas e perdendo somente uma vez. Não há segunda oportunidade. O imenso e sombrio cartaz que prega – FINITUDE – está espalhado por todo o globo terrestre, só não lê quem não quer, ou os que não sabem. Aos que não sabem, não implica sofrimento ou vergonha de ser humano, porque não vivem, apenas vegetam. O capim que alimenta nosso maravilhoso gado nelore que custa milhões e é objeto de desejo, não liga a mínima, pois não pensa, o que é uma grande vantagem. Cresce nos campos, verdes, brilhantes e prenhes de viço, apenas para alimentar.
“_Penso, logo existo” – morro, logo existi! Disse o homem.
A rotação a que estamos compulsoriamente coagidos, só serve para descarte de resíduos dispensáveis. Redemoinhos e vendavais apenas mudam as paisagens, a carga continua a mesma.
Se a terra fizesse como o cachorro: sacudir-se depois do banho, não ficaria prédio sobre prédio, o obelisco de Washington seria encontrado furando a parede do Kremlin, o do Vaticano, fincado no topo do Everest como mastro da bandeira da cristandade. A Rainha Elizabeth seria encontrada dentro da barraca armada pelos súditos aos pés da Torre Eiffel; toda retorcida e prestes a desabar. O rio Sena estaria em Viena escutando as famosas valsas de Strauss, e o Danúbio teria se mudado para Berlim.
Aqui do nosso lado, o Amazonas estaria engatinhando, não correndo, do oceano para o continente (quem quiser que entenda isto). O São Francisco excursionando em Porto Alegre, e o Guaiba fazendo turismo na Cordilheira do Chile; os pobres peixes, todos congelados, de olhos duros e brilhantes, sem entender o que havia acontecido.
A Faixa de Gaza estaaria cobrindo um grande planalto na Colômbia, com mudas novas de papoulas. O “MURO DAS LAMENTAÇÕES”, estratificado, estaria sendo vendido nas feiras como “a pedra do choro convulsivo”. Ia render uma grana preta.
O homem ia andar de quatro, como no começo. Todos os caranguejos sairiam das locas para protestar em frente ao Palácio do Planalto. O Lago Paranoá iria “parar no ar”, volátil e flutuante, perdido no tempo e no espaço, como a maioria dos partidos políticos.

A N A T U R E Z A

DIALIGO ALIENADO

_Quem sou eu?
_Pergunta errada! Pergunte: _Quão sou eu?
_Quão sou eu?
_A luz escanchada nos ombros de outrem. Quão pequena és tu!
_Por que? Como é meu nome?
_Teu nome é luz. E porque não tem vida própria e depende sempre de mais alguém, não mereces respeito.
_Prove…
_È só o sol se apagar, ou ir passear no outro lado que você deixa de existir para nós. A luz da lanterna depende das pilhas, ou seja, da tecnologia humana. O lume da vela está atrelado à estearina; a luz da fogueira está presa dentro do tronco. A claridade do raio está intimamente ligada à raiva de São Pedro. Luz! Você não existe, é uma impostora, dando uma de claridade, quando na verdade não passa de um reflexo.
Assim conversa a natureza com qualquer um, e foi ela que me deu todas estas dicas, e me forneceu este dialogo que tiveram a semana passada; ela e a luz. Eu adoro conversar com a natureza, me torna menos louco… ou será que é mais…
Pelas duvidas não quero ficar longe da urbe, da sociedade, dos compromissos, perdido no vácuo dos tolos, divorciado de paixões e amores, de aconchegos e pruridos; quero trilhar a senda do destino, quero falar sozinho, pensar baixo para não afugentar os medrosos, quero olhar para o solo rachado e distribuir absolvições para os castos, os santos, para os deuses do Olimpo sob meus pés…

Anchieta Antunes – Copyright
Gravatá 08/06/14.

 

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Astronomia para Iniciantes

Esta página é feita especialmente para você que deseja entrar no mundo da astronomia, mas não sabe como nem por onde começar. Muita gente começa do jeito errado, acaba se frustrando profundamente e desiste; acha que é só ter um equipamento na mão e pronto, já é um astrônomo.
 Aqui darei algumas dicas, principalmente, do que não se deve fazer ao iniciar observações amadoras.
O segredo é estudar muito, muito mesmo. Alguns livros sempre são referências, como Rumo às Estrelas: Guia Prático para Obervação do Céu, de Alberto Delerue; Manual do Astrônomo: uma Introdução à Astronomia Observacional, de Ronaldo Rogério de Freitas Mourão (que podem ser encontrados com facilidade e com bons preços) e também os clássicos de Carl Sagan (que podem ser encontrados em bibliotecas públicas e escolares). A internet também é um grande auxílio, porém, deve-se tomar cuidado com os sites que você acessa. Recomendo a leitura de um post bem “famoso” aqui do blog:
Todo esse estudo não será nenhum sacrifício se você realmente amar Astronomia. Afinal, “só quem ama é capaz de ouvir e entender as estrelas” (Olavo Bilac)
1º Passo: Olho Nu
O primeiro passo para adentrar no universo astronômico é observar o céu a olho nu. Pode parecer bobagem, mas, ao fazer isso, identificamos muitas coisas, mesmo nas cidades, onde há poluição luminosa.
Observar o céu é o mesmo que estudar o mapa de uma cidade nova. As estrelas, constelações, planetas, nebulosas equivalem a estradas, ruas, praças, avenidas… Conforme você vai adaptando seus olhos ao céu com observações constantes, logo terá conhecimento o suficiente para aprimorá-las. Só a prática leva a perfeição e, para ajudá-los nesse primeiro passo de observação a olho nu, podemos contar com alguns softwares que mostram o céu como ele está em determinada hora e lugar. O mais usado é o Cartes du Ciel, ele é gratuito e em português, porém recomendo aos iniciantes o Stellarium, que é simples e tem um visual muito bonito. Outro auxílio muito bom são os planisférios, espécies de mapa giratório que mostra o céu em determinado local.
Assim, munidos apenas com mapas do céu e olhos nus, os iniciantes possuem uma boa base e estão prontos para dar o próximo passo…
2º Passo: Binóculo
Portátil, fácil de usar e barato, esse instrumento possui um grande campo de visão (o que permite visualizar melhor os objetos) e nos dá a visão correta do céu, diferente dos telescópios que exigem maior conhecimento, pois se você não apontá-los para a coordenada exata não verá absolutamente nada e a maioria dos telescópios mostra as imagens de forma espelhada ou de cabeça para baixo, o que pode confundir você, caro iniciante.
Então, adie a compra do telescópio e adquira um binóculo, ele será um grande companheiro de toda a sua vida astronômica, mesmo depois de manjar o uso do telescópio. O modelo ideal para iniciantes é o 7×50, que oferece imagens bem nítidas e permite ver uma grande quantidade de objetos celestes, e, novo, custa de R$ 150,00 a R$ 200,00.
Ainda utilizando os mapas do céu (planisférios e softwares) e o conhecimento que você adquiriu com os mesmos durante as observações a olho nu, e tomando por referência uma constelação conhecida (o Cruzeiro do Sul, por exemplo) podemos viajar para as constelações próximas e, assim, pulando de estrela em estrela, vamos descobrindo o céu. Para saber o que mais é possível observar com um binóculo, entre no site http://www.wanderleyjunior.xpg.com.br/astrobino.htm
Antes de avançarmos, você, iniciante, deve se perguntar:
- Já tenho um conhecimento razoável do céu para saber para onde apontar o telescópio?
- Sei identificar os 5 planetas visíveis a olho nu sem auxílio de mapa?
- Conheço as principais constelações e suas estrelas principais?
- Sei localizar as principais nebulosas, aglomerados globulares, aglomerados abertos e galáxias (ou antes, sei o que significa cada uma destas classificações) também sem auxílio de mapa?
Só aconselho dar o próximo passo aquele que respondeu SIM à todas as perguntas. Caso você tenha acertado algumas, está totalmente liberado para usar o binóculo, mas o telescópio… ainda não.
Por quê?
Porque se você comprar um telescópio sem ter esses conhecimentos básicos, ele ficará encostado num canto, você não saberá como usar, para onde apontar, perderá o interessa e desistirá.
Então, estude bastante e, quando conseguir responder SIM à todas as perguntas, prossiga (:
3º Passo: Telescópio
Agora que você possui os conhecimentos básicos acerca do firmamento, está na hora de comprar seu primeiro telescópio. Para onde apontá-lo? A Lua é a candidata mais óbvia, mas não se prenda à ela. Existe um universo inteiro para observar.
O modelo mais indicado é um refletor (que usa um espelho no lugar da lente objetiva) com uma abertura de aproximadamente 120mm e distância focal entre 750 e 900mm. O preço varia entre R$ 1.000,00 e R$ 1.500,00.
Este instrumento aumenta consideravelmente as possibilidades de observação. Com ele, podemos focalizar os anéis de Saturno, as crateras e montanhas da Lua, estrelas múltiplas (que a olho nu parece uma, mas são duas, bem próximas), enfim…
4º Passo: Ao infinito e além!
Depois de seguir todos esses passos, você já está apto para fazer observações com mais autonomia e quem sabe, até realizar uma descoberta.
Muitos astrônomos amadores se aventuram então na astrofotografia, atividade que requer muito, muito estudo. Mas, se você chegou até aqui, pode ir além, não é?!
Fontes (com modificações!)

escritor

ANCHIETA ANTUNES

_Onde estou? Não reconheço este lugar! A luz fere meus olhos.
_Onde você pediu! No corredor da inspiração. Feche os olhos e enxergue com a mente. A luz serve para escorraçar a dúvida.
Foi assim que ele foi parar naquele imenso corredor com uma miríade de lâmpadas luminescentes.
_Este corredor não tem fim? Parece que vejo um canto escuro adiante, em frente a uma fissura na parede, o que será?
_O corredor tem o tamanho dos seus desejos, e o canto não é escuro, é obscuro e a fissura pode ser aberta pelo gigante das montanhas; depende apenas de sua vontade e fantasia.
O gigante foi convocado para a tarefa de abrir uma janela na parede que ficou enrugada quando mãos enormes a afastaram para os lados. Daquele ponto, à guisa de minarete, podia-se vislumbrar uma vista infinita, com folhas planando ao sabor dos ventos, com flores e mares bravios chocando-se nas rochas, salpicando de espumas todas as aspirações na infindável praia de versos, organizados por estrofes e estribilhos; um rio de alusões corria manso na orla da floresta, umidificando os sonhos delirantes do escriba debruçado sobre a folha ainda em branco.
_Estou assombrado com tanto encantamento, com paredes debruadas com papel espelhado, refletindo versos sonhados no alvorecer do lirismo. Onde posso encontrar minha inspiração? Por favor, me responda!
_Sua poesia está guardada no recôndito de sua alma de seresteiro, de boêmio livre de censura. Para encontrá-la basta abrir o escaninho de sua vontade poética. Aos borbotões ela aparecerá iluminada pelas lâmpadas da imaginação. Segure firme o lápis, não trema os dedos, não vacile nas palavras, não dê asas à hesitação. Saiba que sabe, escreva o que sente, adeje nas asas da borboleta multicor. Procure na próxima curva as letras no firmamento, e as use na sua escrita; desenhe versos com traços firmes e absolutos; certamente eles vão encantar os virtuosos. A literatura é a tela do artista, o manancial onde devemos saciar nossa sede de aprendizado e de cultura, o caminho do êxtase.
Assim foi que senti a força do espírito romântico no apogeu de minha vida de escritor interiorano…
…no corredor da inspiração, do tamanho de meus desejos…

Anchieta Antunes
Gravatá – 26/05/2014.

 

ANCHIETA ANTUNES

No campo vasto â sua frente, vai o peregrino trilhando a senda da purificação, amassando com os pés em couro o pedregulho com arestas cortantes, algumas retangulares, outras oblongas, ásperas e lisas, seixos roliços escorregadios, rochas intransponíveis. O caminho em busca do perdão, da ablução é intransigente, longo e dolorido, porém não tanto quanto o é o pecado da preguiça, da maldade e do escárnio para as vítimas da ceifadeira dos que se regalam em acumular bens e prazeres.
O homem que perpetra a cupidez por não se conformar com o bocado que lhe coube na distribuição dos pães, do peixe pescado por outrem, da parte que lhe toca, é cego para a justiça, para Deus e para a vida eterna. Uma vez exaurido o que está à sua frente, ávido, vai em busca de outros lamaçais de vantagens douradas, de palácios flamejantes de volúpia e do pecado da carne.
Aqueles que não têm a humildade de refugiar-se sob o manto sagrado, não merecem a gloria do perdão, de mais uma oportunidade para buscar a palavra justa, correta e derradeira. A purgação no vasto campo do Espírito Santo deve purificar a alma dos peregrinos arrependidos, dos puros de alma, dos que precisam da verdade divinal e do passaporte para a gloriosa vida eterna ao lado de Deus e da Virgem Maria.
Enxergar com os olhos fechados é, no mínimo, fantástico. Flashes de luzes e memórias cobertos pela poeira do tempo. Tempo que avilta o ruim e o bom, o traje e os andrajos, o boné e a coroa. Parece que mastiga rangendo o riso da alegria e a lagrima sobre o féretro. O peregrino coberto de remendos da vida, de desonra, bebe o absinto da cura secular e pede a Deus o perdão eterno.
Peregrino, Deus e o Perdão.
Na ESPLANADA DA CONTEMPLAÇÃO repouso minha vista cansada de observar a vitoria dos ineptos, o progresso da desonra, a incúria dos preguiçosos, abatido de ver tremular o lábaro da corrupção.
Deus, peço perdão

ALAOMPE
Anchieta Antunes – Copyright
31/05/14.- Gravatá- PE.

ANCHIETA ANTUNES

Era eu que estava sentado naquele banco de praça, lembra? Já era a boquinha da noite e uma brisa suave e preguiçosa embaraçava meus cabelos brancos. Eles brincavam no topo de minha cabeça como galhos secos empurrados pelo vento do verão.
Sentado naquele casqueiro de madeira na praça da cidade, eu olhava à minha frente a esquina do mundo. Um prédio de cinco andares em formato de cunha, com o vértice apontando na direção de meu nariz, começou a acender seus olhos noturnos, brilhando na noite que, devagarzinho ia chegando para assustar as crianças, para acolher os desocupados, para encher de sombras as praças, as ruas, os cantos escondidos. Mais um dia que se ia, nos deixando mais velhos, mais sábios, mais cautelosos e lentos.
Naquela esquina passavam gentes de todos os credos, raças, idiomas, tendências e desejos. Podia-se notar o caminhar das desigualdades, as esperanças embaralhadas nos desvios das paixões, a quebra do protocolo, as pernas trôpegas da indecisão.
Naquela esquina, o semáforo abre passagem para o progresso, em detrimento do sossego, quando vem abafar as conversas sem compromisso, romper o silencio provocado pelo arrastar das chinelas no pátio da Igreja. Os antigos não querem progresso, não querem barulho de teclas, assobios de celulares, endereços eletrônicos. Querem somente uma coisa de nome bem curto: paz. Somente, nada mais.
Eu quero aos pouquinhos, ir me enrodilhando em torno de mim mesmo, apagando minha voz, escurecendo minha figura magra até desaparecer aos olhos alheios. Quero roncar meu sono, babar meu descaso, sonhar bravatas épicas e acordar para o novo dia, antigo como antigamente, como o móvel velho da casa vetusta da qual faço parte, não como objeto, mas sim como avô amável.
Quero novamente a serenidade de antigamente para viver um dia de cada vez. Para que pressa se temos toda a eternidade para desfrutar da sabedoria acumulada durante os pingos dos dias que já não voltam?

ALAOMPE
Anchieta Antunes – Copyright.
30/01/14.

A BREJO

POR ANCHIETA ANTUNES

Foi na boca da noite de um inverno brabo que, no terraço do casarão, Otacílio me contou toda esta historia que agora passo pra frente. Chovia todas as chuvas da vida numa só tarde, o tempo estava cinzento e úmido, e aquele cafezinho que tomávamos não adiantava de nada pra esquentar o corpo, muito menos o espírito; foi quando ele, o dono da casa gritou:
_Mariinha, trás aquela pinga especial que eu escondi no quarto, o compadre ta morrendo de frio. Avie logo que estamos necessitados.
Depois do primeiro trago, quando o corpo entrou em ebulição, e a vida salpicou nos olhos, que ele começou a contar sua resenha.

_Eu era muito moço ainda, não tinha nem feito vinte anos, e, meu amigo, para sofrer qualquer idade é ruim, seja ela pequena, media ou grande; amargor que se espicha e dói no corpo todo. Uma tristeza só!
Naquele domingo de tardezinha, quando botei os olhos nela, fiquei cego; cego de amor, ou foi de paixão? Sei não! Estava tão cego da vista que só conseguia ver com os olhos da emoção, até mesmo aquele fio de cabelo preto e lustroso que fazia cócega no nariz dela. A dentadura era uma cascata de alegria, o tempo todo rindo, como se a vida fosse só dela. Morena de olhos grandes e negros como a noite mais escura, corria de um lado para outro, brincando com suas amigas na Praça da Matriz. Criança? Não mais, embora ainda não soubesse de seus encantos.
Demorou três domingos até a coragem se enraizar no meu espírito e eu conseguir matar os dez passos de distancia dela. Cheguei devagar, bem de mansinho para não assustar a borboleta voadora que existia nela. Eu não disse nada: a coragem, aquela enraizada, parece que morreu de sede, e não deixou que eu falasse nem mesmo um _boa tarde moça!
Foi ela que, me cubando de baixo pra cima, disse:_Boa tarde, moço, quer alguma coisa? Se quer fale logo e vá embora, to ocupada com minhas amigas. Tá vendo não, é?
_Quero nada não, só queria lhe conhecer…
_Então quer, ora! Eu sou Lindalva e você?
_Sou Otacílio, a seu dispor. Faz um bocado de domingos que eu lhe admiro, e não tenho coragem para me apresentar, até que disse: _de hoje não passa, e aqui estou.
_E por que tanto interesse, posso saber? Minhas amigas estão morrendo de rir, ta vendo?
_Podem rir â vontade, ouvir sua voz, pra mim, é um mata borrão pras zombarias. Não me ofendem em nada.
A conversa continuou até que a noite apagou o dia. Eu sabia que ia me deitar, mas não conseguiria dormir; tinha a noite toda para passear com ela pela cidade inteira, até cairmos de cansados na beira da esperança. Eu nunca tinha me enfeitiçado daquela maneira por nenhuma mocinha que conheci na vida.
Eu era um rapagão alto, bem fornido, de sorriso franco, ou melhor, uma gargalhada estrondosa, que chamava a atenção de todos e, não posso deixar de acrescentar, muito trabalhador.
Lindalva ainda era um botão de rosa, com seus 16 anos de idade. Os encontros dos domingos foram amiudados para os dias da semana. Primeiro um dia, depois dois, três e por ultimo a semana toda, inclusive o domingo.
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Depois de mais de um ano de encontros e desencontros, encontrei-me num domingo qualquer, caminhando pela beira do rio com meu matulão cheio de amor; só estava esperando descobrir um pedaço mais fundo pra poder jogar tudo aquilo que trazia nas costas, na correnteza do rio. Ela tinha me dito que só queria ser minha amiga. Eu não agüentei, quem podia agüentar tamanha cipoada no lombo? O que eu mais queria era que o rio levasse pra bem longe, todo o meu amor e meu sofrimento, meu desconsolo, e minha tristeza. Meu depósito de lagrimas estava seco, fazia um tempão. Chorei toda a água que tinha pra chorar e ela não mudou de idéia, então pra que continuar? Parei de chorar pra não fazer papel de besta.
Toda vez que voltava pra cidade, fazia de tudo para não vê-la; de que adiantava olhar para ela e não poder abraçá-la, beijá-la, amá-la? Era melhor vazar os olhos pra mandar pra bem longe a tentação de enxergar meu amor; furar os ouvidos para não ouvir a voz da minha patativa, cortar o nariz pra não cheirar o cheiro de minha felicidade.
De vez em quando dava uma pausa no trabalho para secar o suor da testa com a manga da camisa, e depois tomar um gole d’água pra molhar as entranhas esturricadas. Era quando escutava uma voz fina chamando-me com um sussurro. Olhava pra baixo e via meu matulão cheio de amor, pendurado na parede do coração e ele, o amor, escanchado na ponta balançando as pernas, como menino travesso e teimoso. Naqueles momentos tínhamos uma conversa que não me agradava de jeito nenhum. O amor dizia:
_Sua vontade é fraca, foi vencido pelo tempo, a espera foi mais forte e você sucumbiu perante o desanimo; arrodilhou suas esperanças, deitou a cabeça sobre elas e dormiu o sono da derrota. Vencido pelo desespero e desesperança você desistiu da vida, da luta e da pele fina da vitoria. Eu não! Quem pode vencer qualquer batalha contra o amor? Sou persistente e imbatível, indomável e guerreiro audaz. Esteja pronto para receber-me quando eu vencer esta guerra que já está perto de terminar. Esta foi a última conversa que tive com ele, o amor, faz pouco tempo.
De madrugada acordava com um comichão na orelha e já sabia que era a saudade me convidando para dar um passeio na Praça da Matriz. _Isto não é hora de passear na praça, é muito tarde e não tem ninguém por lá, dizia baixinho, e ela, a saudade respondia com toda sua sabedoria:_Tem sim! Tem o espectro de Lindalva procurando o que ela sabe que perdeu, mas não consegue saber, ainda, o que é.
_E o que foi que ela perdeu?
_Ora! Ela perdeu o seu amor!
_Está muito enganado minha amiga saudade, ela nunca perdeu nem perderá o meu amor. Meu amor por ela é eterno e infinito “enquanto durar todas as eternidades”. Só falta ela entrar na 1ª Classe do meu aconchego, do meu carinho, e de todas as minhas atenções. O infinito é pequeno para guardar o que sinto por ela. O firmamento é uma pequena caixa onde escondo um pedacinho dos meus sentimentos.
A saudade dizia:_Meu velho amigo, ela não sabe o que você tem guardado para ela desde que a conheceu; ela pensa que seu amor é um peão que gira, gira e arria no chão cansado de suplicar por um hausto de ar puro para continuar sobrevivendo. Otacílio, ela apenas imagina o tamanho da mansão que você tem para guardar seu amor por ela. Não desista nunca…
Nos meus sonhos eu a beijava sofregamente, com cuidado e lascívia, com os olhos fechados e o espírito aberto. O amor fremia em todo o meu corpo.
Era assim que acontecia: de vez em quando o amor chegava montado no lombo da saudade para me fazer uma visita. Não escolhia dia nem hora, era abusado e mandão. Eu só tinha que abaixar o cogote e aceitar a visita de bom grado. Acho que gostava daquela intromissão profana, que entrava no meu juízo sem pedir licença.
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Lindalva, com olhos fundos e a pele esmaecida, caminhava pelas ruas como uma sonâmbula, como um ente, despida de vigor, de força, de vida. Sua coragem estava escondida no beco da covardia e vergonha. Ela estava arrependida de ter trocado amor puro e saudável por uma simples amizade descolorida e insossa. Arrependimento não resolve nenhuma situação, por mais simples que seja. Há que partir para a ação, pedir perdão, reconhecer o erro, brandir a coragem de ser humilde, e entregar-se de corpo e alma, jogando no abismo do desconhecido a vaidade, o orgulho, e a vergonha.
Lindalva só precisava dar o primeiro passo, que nem mesmo era um passo; não passava de um olhar… olhar pra mim com a suplica pendurada nas pálpebras, como que pedindo desculpa pelo erro, pelo desperdício de tempo recheado de duvidas, e da anarquia do amor vilipendiado.
Um dia…Ah! Um dia… que dia, meu amigo… foi na mesma praça do primeiro congelamento de olhar… meu olhar congelado pela cumplicidade que percebi entre nós; naquele momento mágico já sabia que havíamos nascido um para o outro; para nossa união ser consumada, só faltava a oração, a comunhão de espíritos, o selo da eternidade.
_Foi assim que tudo aconteceu, e hoje estamos aqui, eu lhe contando a história de minha vida pra você, meu amigo “consciência”.
História de amor verdadeiro não pode se transformar em manchete de jornal, em um causo contado nos botequins de ruas espúrias, não pode ser verbalizado por bocas pecadoras.
A “consciência” é o sacro amigo da pureza, e da prudência.

ALAOMPE
Anchieta Antunes
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Gravatá – 11/06/14.

POR VIVIANE TORQUATO

Geralmente adoece. Pois é isto que acontecequando nos calamos diante de alguma situação,de algum confronto ou em momentos de decisão quandodeveríamos nos posicionar, expressar de maneira clara, segura,honesta e sempre educada e gentil e não o fazemos.
Calar parece ser a melhor opção algumas vezes, quando determinadas ocasiões surgem diante de nós e sem nos sentirmos preparados para o enfrentamento destas situações, optamos por calar. Vale aqui uma pequena, porém importante reflexão a respeito deste calar, pois embora possa estar envolvido de boas intenções, poderá provocar em nós emoções negativas que se não percebidas e eliminadas devidamente, conduzirão às varias formas e maneiras de descargas de energias emocionais negativas, comprometendo nossa saúde emocional e física.
Precisamos saber diferenciar o “calar” de quando já tendo nos expressado eapresentado nossas opiniões e pensamentos, calamos como um ato de sabedoria porque compreendemos que a nossa parte foi bem feita e completa. JÁ falamos! Não precisamos ficar insistindo com as nossas opiniões e entendimentos.
Este calar seguramente estará evitando desgastes desnecessários com as pessoas envolvidas na questão, assim também para com todos os presentes. A insistência e o desejo de ganhar a batalha dos nossos pontos de vista, estará informando às pessoas o quanto infantis estamos nos comportando. O bom e amadurecido comportamento humano, aceita perdas e ganhos em diferentes momentos da vida. Ganhamos algumas vezes, perdemos em outras e está tudo bem que seja assim. O importante aqui é termos nos expressado e termos feito a nossa parte bem feita dentro do contexto, pois participamos dele. Agir assim só nos faz bem e nos sentimos satisfeitos profundamente.
O “calar” que acontece quando não nos posicionamos, quando não apresentamos nossos sentimentos e compreensões, deixará em nós e também para as outras pessoas, o significado de falta de coragem, de fraqueza no momento de decisão. A falta da escolhaterá acontecido porque o medo terá assumido o comando das nossas ações. Este “calar” geralmente produz um mal estar interior com emoções negativas e adoecemos da alma e do corpo físico com varias e diferentes manifestações.
Precisamos nos lembrar que todas as coisas, opiniões e sentimentos podem ser ditos e expressos de maneira educada, amorosa e respeitosa. Nestes termos, eles são bons e positivos porque estarão a serviço das nossas verdades internas e dos nosso direitos de expressão. Não precisamos de batalhas e sim de expressão, de trabalho e de cooperação. Hoje será o dia do outro, outro dia será o meu, e todos um dia, terão os seus !
Viviane Torquato

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